4 mitos da Análise Transacional, ou como o Alexis me enervou logo de manhã

Mar 8, 2020 | COISAS DA MENTE

Uma vez fiz uma formação de Comunicação Não Violenta. Excelente formação, que começou muito mal, graças ao engraçadinho do formador Alexis mais à sua mania de ter de pôr as pessoas a pensar.No início de uma formação de dois dias, o Alexis estava a pedir aos participantes quais as expectativas iniciais relativamente ao conteúdo e quando chegou a minha vez disse-lhe o que gostaria de abordar.

Às vezes, há pessoas que falam para mim de uma determinada maneira que faz com que eu ferva imediatamente. Quero saber como lidar com essas pessoas.

O Alexis sorriu e respondeu-me.

Isso é fácil, Ricardo. É culpa tua.

Olhei para o relógio. 9h10. Lembro-me de ter pensado que a coisa estava bem encaminhada.

Ricardo, se essa pessoa disser exatamente a mesma coisa a outra e isso não a enervar, então não pode ser a responsável por tu te enervares. Se a responsabilidade fosse dela, a sua intervenção enervaria todos os que a ela fossem sujeitos.
A pessoa que te fala dessa forma não é responsável por tu te enervares. Tu é que és. Não é com ela que tens de aprender a lidar. É contigo!

Durante esses dois dias, o Alexis explicou-me que essa e outras coisas que julgava serem culpa dos outros, eram responsabilidade minha.

Os 4 mitos

A Análise Transacional, corrente terapêutica iniciada por Eric Berne, define 4 mitos aos quais estamos sujeitos. Estamos sujeitos porque podemos vivê-los nós próprios mas, ainda que nos libertemos deles, vivemos em comunhão com outros seres que talvez não se tenham liberto. E muitos nem querem.

Vamos ao que interessa. Os quatro mitos são:

1/ Eu tenho o poder de ter um impacto positivo nos outros

2/ Eu tenho o poder de ter um impacto negativo nos outros

3/ Os outros têm o poder de ter um impacto positivo em mim

4/ Os outros têm o poder de ter um impacto negativo em mim

Simples, não? Pronto. Obrigado e bom dia!

Ora, é simples de ler. Até é simples dizer “pois claro”. Isso é tudo simples. Lixado é livrarmo-nos deles.

A AT tem uma teoria que me agrade particularmente e na qual assenta o tema dos quatro mitos: cada pessoa é a única e exclusiva responsável pelas suas emoções.

Daí, os mitos 3 e 4 – tal como o Alexis – dizem que quando alguém me diz alguma coisa, esse alguém não pode ser responsável pela forma como interpreto o que me disse e muito menos pela forma como me sinto.

Se me provoca uma emoção – digamos que me enerva – isso é um problema meu e devo, se assim o entender, procurar compreender por que razão me enerva aquilo que me foi dito, ou o comportamento que presenciei, etc.
O que não posso é colocar no “emissor” a culpa daquilo que a mensagem me faz sentir!

Isto dito assim até parece fácil, mas implica nunca mais poder dizer que “aquela pessoa me irritou”, porque isso é mentira. Em boa verdade, aquela pessoa teve um comportamento ou disse alguma coisa que fez com que eu me irritasse. E isso não é, de todo, a mesma coisa.

Uma coisa é assumir a responsabilidade daquilo que se passa em mim, outra coisa é colocar o ónus dessa responsabilidade em alguém provavelmente o fez sem qualquer intenção de provocar em mim fosse que emoção fosse.
Só que dá um jeito do caraças dizer que “ele é que disse e por isso é culpa dele se eu me enervei”. Porque desta forma evito ter de lidar com coisas em que agora não me dá jeito nenhum pensar, tipo, os meus medos, inseguranças, ego, inveja e mais outras coisas que todas as pessoas têm menos eu.

Da mesma forma, quando digo alguma coisa a alguém, não sou de todo responsabilizado por aquilo que a pessoa vai sentir ao ouvir o que lhe digo. Especialmente porque deve ser algo muito interessante, já que sou eu que digo…
E ainda bem que não posso ser responsabilizado. Caso contrário não era possível dizer nada. Nunca. A ninguém.
E, para mim, que gosto de falar com toda a gente – e às vezes sozinho – isto tornava-se um bocado secante.

Se aquilo que eu digo ofende, enerva, magoa, alegra, etc., isso só depende da forma como a outra pessoa o interpreta. Ora, se é simples compreender este conceito, também deve ser evidente aceitar que a responsabilidade é sempre do “recetor”.

Limites do humor

Já agora, é assim que os 4 mitos resolvem o problema dos limites do humor, caso o tema vos interesse. Não é possível limitar o humor de cada um pela simples razão de que não há nenhuma responsabilidade naquilo que os outros vão sentir ao ser expostos a esse humor.

“Ah, mas há coisas que ofendem!”
Há, com certeza. Todas! Só que são coisas diferentes para pessoas diferentes. Para uns é a religião, que outros acham um tema ótimo para debater. Para alguns é a sexualidade, que uns quantos acham um tema divertido para fazer piadas.
Tenho para mim que daria um trabalho enorme andarmos todos com um caderninho para anotar com quem não podemos falar de que tema.

Mas é que há coisas que chateiam mesmo

Mas então, por que razão há coisas que nos enervam, ofendem, magoam, etc.? Isso é tema para outro post, mas tem de ver com os nossos valores, crenças, que nos fazem saltar para dentro do triângulo de Karpman, etc.
Falo disso um dia destes, se me apetecer…

“Ah, mas e quando as pessoas fazem de propósito para magoar, atingir, enervar, etc.?”

São parvas! Em primeiro lugar, são parvas.
Mas, ainda que parvas, não são responsáveis pelo facto de os outros se sentirem magoados, enervados, etc.
Acontece que estes parvos vivem nos mitos 1 e 2, o que faz com que estejam convencidos de que têm o poder de ter um impacto – positivo ou negativo – nos outros.

E isso acontece-lhes por acharem que os outros são obrigados a receber aquilo que dizem/fazem sob a forma que eles enviam.
Se digo alguma coisa para te irritar, dá-me jeito que te irrites. Senão estou só a perder tempo e às tantas isso irrita-me a mim. Mas isso é responsabilidade minha 🙂

Ora, isto significa que se pode dizer o que se quer?

Com exceção de quadros legais, sim. O facto de eu ser um idiota e ser constantemente desagradável para os outros vai, provavelmente, fazer com que construam uma imagem de mim menos positiva e/ou deixem de se dar comigo.
Agora, que se ofendam, enervem, magoem com aquilo que digo é, e só pode ser, problema de cada um.

E mais!
Quando alguém se sente magoado com algo que eu disse e eu, de seguida, me vou desculpar porque me senti culpado com o que “fiz”, isso também é apenas responsabilidade minha.
Mesmo que a pessoa me indique que a magoei com fartura, isso não é verdade. O que aconteceu foi que houve algo no que disse, ou na forma como disse, que fez com que a pessoa se sentisse magoada.

Aceitar os quatro mitos faz com que tenhamos de olhar para nós próprios como únicos responsáveis pelas nossas emoções, perceber de onde elas vêm e deixar de colocar nos outros culpas que não são deles.

#soqueissodatrabalho

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