As 4 emoções primárias, ou as corridas ao supermercado por causa do coronavirus

As emoções na nossa sociedade

Não temos o hábito, na nossa sociedade, de falar das nossa emoções. Nem a nível particular, nem nas escolas, nem nas empresas.
Tenho a convicção de que é um sinal de uma sociedade pateta enviar uma criança para a escola aos 6 anos, durante 17 anos, até ao final do mestrado, dizendo qualquer coisa como :

“Vais agora aprender sobre tudo o que há para aprender, menos a identificar e a gerir o que se passa dentro de ti”.

Anos mais tarde, queixamo-nos de haver adultos que não sabem lidar com as suas emoções, não conhecem as suas necessidades psicológicas e acham que a culpa de tudo é dos outros, do mundo, mas nunca responsabilidade sua.

Eu, por exemplo, como muitos, aprendi no 8º ou 9º ano de escolaridade que os nossos reis foram à Índia buscar especiarias.

Qual é o interesse desse facto para mim hoje? Ergh….

Qual era o interesse que isso tinha aos 13 anos ? Não quero falar sobre isso…

Olhando para trás, reconheço que teria gostado mais de que me tivessem ensinado a analisar as minhas emoções, a compreendê-las e a saber como utilizá-las para algo de produtivo para mim e para os outros.

Certo que podem dizer-me que só hoje tenho essa visão global, mas que na altura isso também não me interessaria. Pode ser, mas as especiarias da Índia não me interessaram na altura nem hoje. Creio, por isso, que teria ficado a ganhar com isto das emoções. Eu e as mulheres cá de casa, que agora têm de levar com as minhas pancadas mal resolvidas.

Ganham alguma coisa em troca pelo facto de eu saber que Vasco da Gama chegou a Calecute em Maio de 1498 e teve muitas dificuldades em negociar condições comerciais por causa da diferença cultural e pelo facto de as propostas serem demasiado baixas?!
Duvido. Mas, agora, é o que há…

 

Parece-me pertinente informar de que não tenho rigorosamente nada contra a disciplina de história. Posso, sem querer, estar a ofender pessoas que achem que com a disciplina de história não se brinca.
Sobre isso, disse coisas no post sobre os 4 mitos de Análise Transacional.

 

Adiante. Vamos ao que interessa.

Temos todos 4 emoções básicas, primárias, inatas.
São emoções que são de uma utilidade sem igual para a nossa sobrevivência.
São elas a felicidade (alegria), tristeza, ira e o medo.

 

Emoções ou Sentimentos

Antes de as analisar, é importante esclarecer a diferença entre emoções e sentimentos. É importante porque eu acho que sim, não porque haja uma razão melhor que esta.

Embora utilizemos com frequência o mesmo verbo Sentir para acedermos a ambos emoções e sentimentos, existem 3 dimensões onde não falamos de todo da mesma coisa.

 

Físico vs Psicológico

As emoções são uma reação física à situação em que me encontro. E, neste contexto, são um excelente termómetro para o que se passa à nossa volta e é por isso que não devemos ignorá-las. Se, face a uma determinada situação, sinto medo, por exemplo, isso diz-me algo sobre a situação e a forma como me relaciono com ela. Mesmo que não exista realmente perigo, não é isso que sinto quando confrontado com a situação.
Os sentimentos não se sentem no corpo. Eu sou capaz de sentir uma reação física chamada euforia – o corpo enche-se literalmente de energia, por exemplo – mas não sinto no corpo o sentimento de felicidade. Eu sou capaz de sentir no corpo o medo – fico mais tenso a nível muscular, por exemplo – mas não sinto no corpo o sentimento de preocupação.

As emoções sentem-se no corpo. Os sentimentos não.

 

Consciente vs Inconsciente

Ao passo que as emoções são inconscientes, por serem uma reação não controlada, os sentimentos podem trabalhar-se. Mais uma vez, se sentir preocupação relativamente a um determinado assunto, sou capaz de fazer uma análise fria da situação e perceber que não há razão para isso. E deixar de estar preocupado.
No entanto, se sentir medo, é-me difícil analisá-lo friamente e deixar de ter medo de forma consciente. Alias, pode acontecer não conseguir analisar friamente o meu sentimento de preocupação justamente porque a situação que me preocupa faz-me sentir medo e isso tolda a minha capacidade de julgamento avaliativo.

 

Estabilidade temporal

As emoções têm um duração curta, na ordem dos segundos, minutos ou horas. Os sentimentos têm uma estabilidade temporal maior. Posso ter um mesmo sentimento por várias semanas ou meses, mas não uma emoção, justamente porque um é uma reação expontânea a uma dada situação e o outro é algo de maior consciência.

 

Função das emoções primárias

Qual é, então, a função das quatro emoções primárias, para além da tal função de termómetro?

Tristeza

A principal função da tristeza é o que chamamos “seguir em frente”. Trata-se de fazer o luto de uma situação passada para poder avançar plenamente para outra coisa. É uma reação negativa a uma situação passada, geralmente associada a uma perda, e pressupõe uma aceitação dessa.

A emoção da tristeza pode fazer-se sentir no corpo através da falta de energia, apetite, e inclusive de atividade cognitiva. É o nosso corpo a poupar o máximo de recursos, em situações onde nos sentimos incapazes de agir ou assumir o controlo.

Protege-nos, centrando a nossa atenção para as funções mais básicas, evitando distrações desnecessárias os funcionamento do organismo.

Em excesso, a tristeza pode transformar-se em depressão.

 

Ira

Mais conhecida por Raiva, esta é a emoção da ação. Caracteriza-se por ser uma reação contra a situação atual. É uma reação negativa a situação atual.

No corpo, experiência-se uma maior amplitude respiratória, uma tensão muscular e uma aceleração do batimento cardíaco, o que leva a um aumento de temperatura e de adrenalina.

Esconde, por detrás da sua expressão, o medo ou a necessidade de mudança. Numa situação hostil, preparo-me para reagir fisicamente. Atacar, fugir, agir!
Por isso, alguém exaltado não é sempre mau. É alguém que está com medo de algo ou que necessita de que a situação atual seja alterada. A raiva prepara o corpo para a ação.

Em excesso, a ira pode deixar-nos incapazes de analisar friamente a situação antes de agir.

 

Medo

É a emoção de sobrevivência por excelência. É uma reação negativa sobre uma situação futura.
A sua principal função é fazer-nos evitar situações que nos coloquem em perigo.

Face a uma situação potencialmente perigosa, sentimos o corpo tenso, a respiração mais curta e acelerada – hiper ventilação, respiração de pânico, que “vem do tronco” em vez do diafragma.
Essa alteração respiratória pode levar a um aumento de CO2 no sangue e, em casos extremos, a tonturas, desmaios, dores no peito, etc.

O medo desempenha um papel de certa forma benéfica, porque é a emoção que nos coloca em estamos de alerta. Além disso, é instintivo, pelo que tem a função de proteger ainda que não se tenha bem a noção do quê. Sente-se medo mas não se sabe bem porquê.

Em excesso, o medo pode bloquear a nossa ação (mesmo a ação de proteção) ou transformar-se em fobia.

 

Alegria

A alegria (emoção) leva-nos à felicidade (sentimento) e é a emoção que nos permite relacionarmo-nos de forma positiva com o mundo que nos rodeia, recarregar a nossa energia, sentir orgulho de nós próprios pelo que somos.

Num estado de alegria, o nosso corpo liberta uma maior quantidade de endorfina, chamada a “droga da felicidade”, por aliviar a dor e proteger-nos de doenças, por exemplo. Incrível, huh?

Alegres, temos maior vontade de nos envolver com o mundo à nossa volta, estar em comunhão e em paz com o que nos rodeia. A alegria facilita a interação social e permite fortalecer as relações. E é de graça 🙂

Não sei se existem estudos que comprovem um risco perante o excesso de alegria (com exceção do transtorno bipolar, que não é para aqui chamado), por isso é aproveitar. Pode, associada à ingenuidade, levar-nos a tomar decisões tolinhas só porque estamos muito felizes. Mas não tenho a certeza de que isso seja provocado por estarmos excessivamente alegres ou por sermos excessivamente tolinhos.

As emoções têm uma função importantíssima para o nosso funcionamento. Vai daí que decidi deixar-vos um pdf no link abaixo com algumas emoções que derivam destas. Há, certamente, muitas mais, mas tinha mais que fazer do que estar aqui a escrevê-las todas.
Procurem na net, se quiserem… emoções primárias e derivadas

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