Olha, tu queres ver? Um chorozinho que irrita.

Abr 13, 2020 | NOT SO SECRET me

Desde há algum tempo que ando a lutar contra isto que, com um bocado de sorte só me acontece a mim. Não faço ideia de como lidar com a situação.

Diz que o choro da minha filha me deixa capaz de lhe explodir em cima!

Para esclarecer, não é o simples facto de ela chorar. É a razão pela qual chora. Ou, melhor, a minha interpretação dessa razão.

Se estiver a chorar com dores, com fome, etc, a pequenina chora, com força e bem e até aí tudo 5 estrelas.
Se eu entender que está a chorar por birra, está o caldo entornado.

 

O choro em si é bom, diga-se.

A Emma tem uma qualidade de choro de fazer inveja a qualquer bebé. Até mesmo aos crescidos dos 3-4 anos.
O tom é surpreendentemente agudo, o ritmo é acelerado e acompanhado de um espernear de membros superiores e inferiores que parece ter nascido de uma fusão entre sevilhanas e a dança can-can.
Junte-se a isto o inspirar esganiçado, aliado a uma expressão facial de desespero de fim de mundo e fica-se com um espetáculo airoso para quem aprecia tortura da boa.

 

Acontece que às vezes me enerva muito

Eu tenho um problema mal resolvido com a autoridade. Ou antes com o autoritarismo porque, em boa verdade, a autoridade é-me fácil de aceitar.

Sai-me muito mais complicado aceitar a expectativa da obediência cega do “só porque eu quero“.

Como é de imaginar, este traço de personalidade sempre me proporcionou momentos de uma delicadeza que só visto.

Na realidade, é possível levar-me a fazer qualquer coisa mas o segredo está na forma. Tão depressa sou a melhor pessoa a quem pedir um rim para salvar a equipa – ali mesmo, na hora, saco da faca do Rambo, faço a extração do orgão e testemunho pelo canto ocular a felicidade do coletivo enquanto me esvaio em sangue – como sou completamente inflexível com as coisas mais estúpidas se me disserem que tenho de cumprir “porque eu estou a dizer“. 

A expressão de exemplo – “porque eu estou a dizer” – é tudo menos fruto do acaso. Trata-se provavelmente de uma das origens deste imbróglio todo e tem que ver com uma expressão que me é muito familiar da minha infância.

E isso hoje persegue-me por duas principais razões.

A primeira remete-nos ao tema de hoje: o choro da Emma. Quando a minha filha chora por “birra” e esperneia porque não quer dormir ou porque lhe tiraram um brinquedo ou não a deixam mexer no que ela quer, é mais forte do que eu interpretar isso como uma atitude “isto vai ser como eu quero” e isso deixa-me tipo granada sem cavilha. Não me deslarguem senão expludo.
A Emma agora tem a mania de, quando vai para o quarto e percebe que é para dormir, cerra a boca com toda a força para não lhe colocarmos a chucha. Se soubesse as vezes que já esteve para engolir a chucha à berlaitada até ficava maluca.
Imagine-se, portanto, o que eu adoro aquelas chapadas na colher de sopa mesmo quando está a chegar à boca. As paredes da cozinha podiam ser património mundial, de tanta pintura rupestre. 

Acontece que isto me transtorna ao ponto de ter de a passar à progenitora mais próxima – que agora anda sempre por aqui porque estamos de quarentena – porque não suporto olhar para a miúda sem pensar em estrafegá-la. É emocional, é mais forte que eu. Não tenho nenhum controlo sobre a minha reação. É um bocado assustador. 

A segunda tem que ver com o facto de não me passar pela cabeça fazer com que a Emma viva, na sua infância, passagens remotamente parecidas com algumas que eu vivi na minha.

É por isso que sentir este tipo de coisas nesta fase – entenda-se, quando as birras a sério ainda nem começaram – me deixa particularmente assustado. 

 

O que é que faço com isto?

Ora aí está a pergunta de um milhão de euros.
Vamos lá ver. Eu sou coach com uma pós graduação em psicologia por isso a resposta apresenta-se de forma relativamente evidente : terapia.

Mas o que é que faço até o processo estar resolvido? Se estiver algum dia…

É que, ao estado furioso em que fico, junta-se uma culpa enorme de estar a ser um pai horrível. Racionalmente, sei que a minha filha não faz de propósito para me tirar do sério. E, mesmo que o faça, com 9 meses não devia ser algo que me afetasse por aí além.

Tenho tentado levar a coisa o melhor possível até porque ela chora que se farta – raios a partam – mas aceito sugestões. 

É que se isto se prolongar ainda lhe arranco um bracinho à dentada com os nervos. E isso parecer-me-ia um momento pai-filha no mínimo estrambótico.

Nota para Darwin : crianças com interruptor on-off.

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