Sofro da Síndrome de Impostor, o que é chato.

Abr 27, 2020 | COISAS DA MENTE

Sofro da Sídrome do Impostor e isso é chato.

É chato, em primeiro lugar, porque se trata de sofrer e isso nunca é bom. Quer dizer, há quem goste, mas não é o meu caso.
Depois, porque mete uma síndrome, que é uma palavra que nunca se sabe bem como pronunciar (síndrome, síndroma, é masculino, é feminino?).
E, por úlitmo, tem a ver com um Impostor qualquer, por isso não deve agoirar nada de bom.

Ora, ainda assim, há muita gente que sofre disto. Consciente ou inconscientemente.

Vamos por partes. O que é a Síndrome do Impostor ?

É algo espétacular, se vocês acharem que não têm valor nenhum e que não merecem nada daquilo que conquistam na vida!
Se forem desses, esta síndrome é feita para vocês.

A Síndrome do Impostor, que não é considerada uma doença, é formalmente denominado por Fenómeno do Impostor e é um termo de Pauline Clance e Suzanne Imes, que data dos anos 70.
O primeiro estudo que realizaram na área foi completamente orientado para o efeito deste fenómeno em mulheres, que eram consideradas mão de obra inferior à masculina. Mais tarde, verificaram que está presente em ambos os géneros.

Tem que ver com uma série de sentimentos à volta do medo, ansiedade, incertezas e inseguranças que transmitem a crença (porque é nisso que acredito) que não se é merecedor daquilo que se conquista, das realizações que se alcança.
Na mente de alguém que sofre desta síndrome, tudo o que conquista é vindo da sorte, por estar à hora certa no sítio certo, por conhecer aquela pessoa que fez com que tudo acontecesse…

O fator comum é acreditar que, independemente do que se realize, não é por mérito próprio.

Como é que isto se manifesta?

Já percebi há alguns anos, acho eu, que padeço disto.
Digamos que já me ocorreu 2 ou 3 (milhares de) vezes que “tenho uma sorte do caraças nas coisas que me acontecem na vida“, que “um dia vão descobrir que não percebo nada disto“, ou ainda que “faço as coisas sem ter legitimidade nenhuma” e sentir que ando deliberadamente a enganar as pessoas.

Devo confessar que vivo com um medo constante de, ao virar da qualquer esquina, poder ser desmascarado e passar a humilhação da minha vida. E tenho sempre a sensação de que é já na próxima esquina.

No contexto profissional, ser avaliado sempre foi um pesadelo. Cada vez que alguém me falava de pontos nos quais devia melhorar ou coisas que não tinha feito bem, sentia um frio no corpo todo e o pensamento imediato de “já fui descoberto“.

Lembro-me de uma tarde ter recebido um sms de um antigo manager que me perguntava se podia estar no escritório no dia seguinte às 8h30. Não jantei. Tinha o estomago completamente embrulhado. Também não dormi e recordo-me de passar uma boa parte do tempo a imaginar o que teria ele descoberto para me ir despedir. Sim, despedir. Passei a noite cheio de medo da reunião do dia seguinte.
Quando cheguei, o Nicolas já lá estava com um powerpoint que queria que eu visse porque achava que eu percebia muito daquilo e queria que o ajudasse a preparar uma apresentação que fazia às 9h.

Até a escrever isto me apercebo do quão ridículo pode parecer, mas sei que se me acontecer algo semelhante amanhã, é muito provável que vá passar pelo mesmo.

Mais coisas giras que isto traz?

Procrastinação

Com o receio de ter avaliações ou julgamentos negativos sobre as tarefas que realizo, adiar é o melhor remédio. Até ao limite máximo de não fazer as coisas por ter a “certeza” de que vai correr mal ou ser mal percebido. Se soubessem o número de projetos que já quis lançar e que ficaram por fazer pelo facto das “pessoas irem dizer que este gajo não é ninguém para estar a falar disto”. Depois dou comigo a ficar danado quando vejo gente a fazer o mesmo, com a mesma legitimidade que eu – ou menos! Bom para eles.
E traz também aquele ligeiro problema da ansiedade, não é? De ver prazos a chegar ao fim e nada feito….

Comparação constante

O fenónemo do impostor anda mais ou menos de mãos dadas com o perfecionismo. Aquela atencãozinha estúpida aos detalhes que faz com que, quando dê formação, por exemplo, se desenhar um traço fora do sítio, tenha vontade de me esconder e acabar a formação logo ali porque já não sairá dali nada com qualidade. Assim, é impulsivo passar a vida a comparar-me com outros que são (óbvio) todos melhores que eu… enfim…

Auto sabotagem

Como nada vai resultar em algo merecido, o melhor é nem me esforçar muito porque, de qualquer forma, ninguém vai achar nada de jeito. Além disso, para fazer alguma coisa como deve ser, teria de ir tirar 6 licenciaturas no tema, mais 2 mestrados e escrever, pelo menos, 3 livros. Assim – talvez! – tivesse alguma legitimidade.

Agradar a todos

Esta é muito agradável, como o título deixa prever. Acontece que, para compensar aquilo que não se acredita ter em competência, o melhor é cair nas boas graças de todo o santo indivíduo. Igualmente, se alguém aparenta não ir muito com a minha cara, é certamente porque “já me topou”. Mesmo que me tenha conhecido há 2 minutos.

Não mereço o elogio. Não fiz grande coisa.

A Síndrome do Impostor faz-me sentir que não mereço as coisas que conquisto. Constantemente. Se algo me correu bem profissionalmente, por exemplo, foi certamente sorte ou só consegui porque alguém interveio.
Frases começadas por “Eu só…” são muitas utilizadas no meu dia-a-dia. Eu “” faço coisas sem que não têm grande valor.

Lido mal com elogios. Se me é feito um elogio, sinto-me fisicamente mal, estomago apertado, corpo tenso. É-me difícil olhar diretamente para pessoa que me elogia.
Não fiz nada para merecer aquilo e, ao aceitar o elogio, estou a enganar as pessoas. Levo-as a pensar que tive algum mérito quando, na (minha) realidade, é tudo uma questão de sorte.
Não coloquei esforço nenhum para realizar aquela tarefa e “sei” que, para ter sido por mérito próprio, deveria ter-me esforçado umas 1000x mais. Não, a maior parte das vezes é só sorte.

Se estão a ler isto a pensar “olha eu!“, aqui vai:

Como é que se lida com isto?

Álcool! A primeira dica que vos dou é álcool. Gin, Vodka, Whiskey, bagaço, o que melhor vos convier.

Tirando isso, ficam aqui algumas coisas que me ajudam a mim:

Tomar consciência

Ser consciente já é um passo enorme porque quando não se sabe, assume-se o mesmo que assumem todos os que têm iliteracia interna (falta de auto conhecimento), que é o “sou mesmo assim, porque é assim, porque sim”. Ora, quando nos conhecemos e sabemos de onde as coisas vêm, é mais fácil lidarmos com elas. Deixo-vos no final o teste para saberem se sofrem disto e em que medida.

Aceitar que se merece as vitórias e os elogios

Dito assim parece estúpido, não é? Acabei de dizer que é uma das dificuldades e afinal é “só passar a fazer” e já está. Ora, não é bem assim, mas de cada vez que me elogiam ou que consigo algum feito, digo a mim mesmo que mereci. E, à força de o dizer, às vezes, muito raramente, vai-se acreditando aqui e ali.

Identificar onde se é bom

O teste Gallup é uma das coisas que me ajudaram e que uso hoje em processos de coaching com aqueles que acompanho. Se é possível, do ponto de vista racional, aceitar que toda a gente é boa em alguma coisa, é só encontrar em que se é bom, porque, em princípio, fazemos parte do toda a gente.

Combater a perfeição

É com este que luto mais. É que eu não acho que seja perfeição. Acho que a forma como quero fazer as coisas é só “fazer bem feito”. Não é uma questão de perfeição. É que menos que aquilo não vale a pena, porque não tem qualidade. Se existisse uma noção clara do limiar da perfeição era fácil, mas não é atingir a perfeição. É fazer as coisas bem feitas. Os outros é que acham que estou a ser perfecionista, só porque 99% não é suficiente. Burros.

 

A Síndrome do Impostor, ou Fenómeno do Impostor, não é uma doença (ainda bem) mas é presente na realidade de muita gente. Aprende-se a lidar com isso.

Se quiserem fazer o teste, basta clicar no botão 😉

 

TESTE SÍNDROME IMPOSTOR

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