Esperança e datas – duas coisas que percebi sobre mim durante a quarentena

Mai 6, 2020 | NOT SO SECRET me

Coisas que me acontecem

Durante este período de confinamento, passei/passo por vários momentos.

  • Há alturas em que me dedico ao trabalho como se o planeta fosse parar de rodar amanhã;
  • Há alturas em que passo o dia de pijama, com a sensação de que o planeta vai continuar a girar sem que isso lhe importe;
  • Há dias em que acordo com uma energia capaz de fazer desporto o dia inteiro. Em que vou correr às 23h.
  • Há dias em que preciso de um dicionário para saber o que quer dizer “desporto“;
  • Há dias de leitura intensa, com a sensação de que vou ler todos os livros que ainda não abri;
  • Há dias de séries de Netflix, Hbo, etc.s do streaming
  • Há dias de jazz, blues, de Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Etta James; ou de Ed Sheeran, Lady Gaga, Justin Timberlake;
  • Há dias bons, em que tudo corre bem, os posts têm muitos gostos 😀  e farto-me de falar com pessoas;
  • Há dias maus, como o de ontem, em que a miúda está impossível – não fosse filha do seu paizinho – a máquina de lavar dispara o disjuntor e inunda a cozinha de água, os utensílios partem-se na mão quando tento servir o jantar e um conjunto de pequenas coisas faz com que pareça que o meu mundo vá acabar logo ali;

Ainda não chegámos ao dia em que acaba o papel higiénico no momento errado. Aí, sou capaz de cometer uma loucura.

Há, no entanto, duas coisas que aprendi sobre mim durante este período.

Necessito de ESPERANÇA e DATAS para viver a minha vida com serenidade!

Devo dizer que estou convencido de que sempre deve ter sido assim, mas acho que nunca tinha tomado consciência disso.

ESPERANÇA

A história de que “a vida agora é assim” é uma treta pegada! E ainda bem. Se eu acreditasse mesmo que a minha vida a partir de agora seria assim para sempre, com períodos de confinamento, máscaras obrigatórias, luvas q.b., sem poder beijar e abraçar aqueles de quem gosto, sem poder apertar a mão àqueles de de quem gosto menos 😀, a passar a vida com medo de tossir e a olhar de lado para os que tossem à minha volta, já tinha dado em maluco.
Já tinha comprado um foguetão no AliExpress, por 1€, para fugir para Marte, ou assim…

A nossa vida vai ser tão normal como antes. Talvez ainda mais, porque as pessoas anseiam por essa normalidade de tal maneira que a vão viver mais intensamente.
Assim que houver uma vacina, acaba-se esta “nova realidade” com a velocidade de uma diarreia. E a comparação é merecida, tendo em conta a tristeza de vida que isto nos proporcionou estes últimos tempos.

Tendenciosismos inocentes

Eu não sou daqueles que acreditam que isto veio trazer grandes transformações à sociedade.

Ah, percebemos todos que não necessitamos de consumir tanto!” – Foi, foi! Pois percebemos. Deixa abrirem os centros comerciais, para veres…

Ah, mas de nada vale ostentar, porque os grandes carros estão agora fechados em garagens!” – Certo, no final da quarentena os donos vão já vendê-los para passarem a andar de trotineta, bicicleta, e mais coisas acabadas em eta…

Ah, mas este período veio mostrar que os negócios online revolucionaram tudo” – E mais, revolucionaram de tal maneira que eu já não posso ver ninguém pelo Zoom.
Zoom esse, aliás, que vai ser o primeiro a levar um arrombo do cacete quando o mundo de carne e osso voltar a fazer reuniões presenciais. As súbitas subscrições que deram à Zoom estes milhões todos  estão destinadas a ir às urtigas. Bom, adiante, que o meu desígnio não é maltratar o Zoom…

Portanto, a única coisa que me move é saber, justamente, que isto de “para sempre” não tem nada. Como, diga-se, nada tem, tirando aquela fatalidade a que todos estamos destinados e que é a última coisa que fazemos.

Profundidade e/ou durabilidade

Para se dar a tal transformação da sociedade de que tanto se fala – e da qual eu seria um alegre apologista – seria necessário pelo menos um deste elementos: profundidade da calamidade ou durabilidade das medidas.

Se a calamidade que estamos a viver tivesse tido uma profundidade muito maior, como foi o caso de países como Itália, Espanha, etc., poderia efetivamente dar-se uma transformação, resultado da intensidade do sofrimento vivido.
Não havendo essa profundidade, poderiamos testemunhar essa mesma transformação, caso as medidas de prevenção  como o confinamento obrigatório – se arrastassem durante 2 anos, por exemplo. No final desse período, a “nova realidade” estaria já de tal modo incutida nos hábitos que as coisas poderiam mudar.
Mas não vivemos nenhum desses elementos em Portugal. E ainda bem.

Tenho para mim que vamos já verificar a minha teoria assim que as praias começarem a chamar pelas pessoas. Logo se vê…

Quanto a mim, a esperança – mais a certeza, até – de que isto vai tudo voltar ao normal tem-me trazido a serenidade de que preciso para enfrentar, por exemplo, dias como o de ontem.

DATAS

O problema é que também preciso de datas para estar sereno. E esta é que tem sido a merda. Preciso de luz ao fundo do túnel. Gostava que um daqueles artistas que aparece na TV de fato e gravata dissesse qualquer coisa como: “Isto termina a 17.06, pelas 14h52. Obrigado e bom dia.“.
E nem precisava de ser mesmo nesta data. Podia ser outra. À escolha. Uma qualquer. Mas necessito de que alguém me diga quando é que isto acaba.
Reparem, a esperança eu tenho. Agora, preciso de saber quando é que a substituo pelo objeto da sua existência.

E já estou tão fartinho de não saber!

Nós, seres humanos, lidamos mal com a imprevisibilidade. Isso tem que ver com o modo automático para onde o nosso cérebro vai sempre que pode para poupar recursos cognitivos. Acontece que o nosso cérebro acha estúpido estar a raciocínar várias vezes sobre a mesma coisa. Então, regista automatismos no cérebro para que a coisa se torne mecânica, inconsciente. Estamos de acordo que a nossa vida seria uma seca se, ao fim de 20 anos a conduzir, ainda tivessemos de consciencializar a mudança de velocidade, como fazemos quando estamos a aprender?

Por isto, necessito de datas, de saber, de previsibilidade. O não saber quando é que voltamos a fazer uma vida normal é que me tira do sério.

Esta história de agora voltarmos a fazer coisas às mijinhas tem tudo para correr mal para o meu lado.

E porquê?

Eu sou um bocado de extremos. E, portanto, dizerem-me: “Podes fazer tudo.” – tudo certo. Gosto muito.
Dizerem-me: “Estado de emergência : não podes fazer nada!” – também tudo certo. Gosto também muito. Além de ser uma mensagem clara, de fácil compreensão, fala sobre não fazer nada, que é algo que só por si me jovializa.
Agora, virem-me com: “A partir de hoje, podes sair, mas não comer em restaurantes. Podes andar de máscara aqui, mas ali não é preciso. As luvas podes, mas não são obrigatórias. Ver os Guns N’ Roses não, mas se quiseres ir ao Avante sim…” – vai dar merda. Claro que vai.
Já me vejo de tal maneira alucinado que um dia destes vou dar por mim a tomar banho de máscara e a passear na rua de pijama e chinelos, enquanto faço uma vídeo chamada no tal Zoom!

Preciso desesperadamente de assinalar no calendário quando é que a minha vida pode voltar a ser a rebaldaria que era. Quando é que posso voltar a fazer as coisas à balda sem ter receio de estar a infringir uma qualquer regra de saúde, distanciamento,… Preciso de não me sentir como no outro dia, em que fui à rua fazer qualquer coisa que não era imperativa e dei comigo a ver se havia polícia na rua, como se estivesse na pele de um criminoso.

Preciso rapidamente de saber quando é que termina a minha vida de prisão domiciliaria.

Dêem-me uma data, por favor, que me faz tanta falta! Uma qualquer! Muito obrigado.

OUTRAS COISAS QUE TENHO DITO

Como se cria uma pessoa racista?

Como se cria uma pessoa racista?

Como se cria uma pessoa racista? - Nota introdutória Acerca deste texto sobre como se cria uma pessoa racista, é importante esclarecer desde já que este artigo só pode ser lido por criaturas que consigam distinguir conceitos como compreender, aceitar, concordar, etc....

Coisas que aprendi depois de 10 dias sem telefone

Coisas que aprendi depois de 10 dias sem telefone

Como são capazes de ter visto nas redes sociais, espatifei o vidro do meu iPhone. (gosto de dirigir-me no plural, como se houvesse mesmo mais do que uma pessoa a ler isto e que essa pessoa não fosse eu...) Nada de entusiasmante, como tudo aquilo que me acontece....

As coisas importantes da vida acontecem num segundo

As coisas importantes da vida acontecem num segundo

As coisas importantes da vida acontecem num segundo! Sempre tive esta convicção, que está intimamente ligada à 4ª dimensão: o tempo. Cada segundo é um acontecimento completamente diferente do anterior e do seguinte, e por isso torna-se em algo isolado. O que faz com...