Coachs que vendem felicidade são como cartomantes que vendem o futuro

Mai 7, 2020 | COISAS DA MENTE

Parece tentador, mas é treta! Pronto. Podia acabar aqui.

Eu sou coach, diga-se já de passagem. Fiz uma formação de coaching no estrangeiro com uma duração de 1 ano, que me custou +10K, que é equivalente a uma pós graduação, numa escola internacional certificada pela Internacional Coaching Federation, que é – se não A – uma das melhores entidades do mundo no domínio do coaching.

E só digo isto com toda esta pompa, circunstância e boa dose de gabarolice para poder dizer tudo o resto.

Vender felicidade é dar cabo do coaching aos outros

Colegas de profissão que vendem acompanhamentos em coaching “para que sejas mais feliz” estão a espatifar a profissão. E para isso já chegam aqueles que vão para os programas de TV dizer todas aquelas coisas que me dão depois a mim uma credibilidade incrível de consumidor intenso de canabis cada vez que digo a alguém que sou Coach.
Ficam a olhar para mim com aquele ar, tipo, “ah, és como o outro“.

Um acompanhamento em coaching não tem coisa nenhuma que ver com a felicidade. Quero lá saber dos life coach, dos happiness coach, dos fulfillness coach, dos raio-que-os-parta-coach!

Nada, zero, bola, nicles, rien de rien…

E porquê? (por tantas razões, meu deus…)

Vender felicidade através do coaching é estar, simplesmente, a enganar as pessoas. E mesmo que se tente impingir a teoria de que “ao alcançar os seus objetivos a pessoa será mais feliz“, eu continuarei firmemente a alegar que é treta da boa.

  • Em primeiríssimo lugar, e é a coisa mais séria que lerás neste artigo, se por qualquer razão achas que não és feliz e queres trabalhar nesse sentido, existe, efetivamente, um profissional que te pode ajudar.
    Chama-se psicólogo!
    Não é o coach, não. É o do consultório ao lado. E não tem mal nenhum precisares de ser acompanhado por esse. Todos deveríamos ter um e só não temos por vivermos com a mania de que somos os maiores. E por ainda educarmos crianças à chapada.
  • Em segundo lugar, porque um acompanhamento em coaching vende-se. E portanto insinuar que alguém compra um processo para ser feliz não me parece ético. E, já agora, é muito diferente – MESMO – de pagar a um psicólogo por se achar que não se é feliz.
  • Em terceiro lugar, porque nada prevê que a pessoa seja mais feliz ao atingir seja o que for. Existe uma diferença monumental entre sentir auto-realização, sentir-se orgulhoso versus sentir felicidade.
  • Em quarto lugar, porque mesmo que seja esse o resultado final, não foi isso que a pessoa comprou. O que lhe foi vendido foi um acompanhamento para atingir o objetivo pretendido. Se a felicidade veio como bónus, melhor para ela, felizes que estamos também, mas o coach não tem a ponta de um corno a ver com isso!

A única pessoa capaz de fazer com que sejas feliz – e se tudo correr bem não te devo estar a ensinar nada – és tu!
Pronto, até aqui, todos tínhamos chegado. Só os coachs que vendem felicidade é que não.

Eric Berne, um psicólogo canadiano, criador da Análise Transacional defendia que a felicidade vem do interior e não do estímulos exteriores, podendo atingir-se através de 5 aprendizagens :

  1. saber DAR
  2. saber RECEBER
  3. saber PEDIR
  4. saber RECUSAR
  5. saber DAR A SI PRÓPRIO

 

Se quiseres saber mais sobre o porquê de seres o único capaz de alcançar isto, talvez encontres algumas pistas no post dos 4 Mitos da Análise Transacional
Clica aqui para leres.

Contrato de coaching com um cliente

Eu não o tinha escrito assim até agora de propósito, mas é assim que se chama. Um contrato, com um cliente.
Quando acompanho alguém em coaching, assino um contrato com a pessoa que incide sobre o tema do coaching, os potenciais assuntos a abordar, o objetivo a alcançar, o timing para lá chegar, número de sessões, etc.

É muito concreto! O que, só por si, já é contraditório à felicidade, que de concreto tem pouco.

O último cliente que comecei a acompanhar queria conseguir “ter um emprego melhor no espaço 1 ano“.

Só no objetivo já há trabalho a fazer. Para já, é preciso saber o que é um emprego melhor. Melhor quer dizer o quê? Depois, porquê um ano? Porquê agora?
Ainda mais importante, o que é que depende dele para alcançar o objetivo? O que é que não depende?

Depois de o cliente validar o objetivo – porque a vida é dele – o meu trabalho é acompanhá-lo a criar estratégias para que ele consiga lá chegar.
E quero dar ênfase a todos os bolds que mostram que é o cliente que faz tudo! Porque a vida é dele.

Por isso, coach’s que vendem acompanhamentos do tipo “vamos fazer juntos“, “vamos trabalhar para você conseguir“, podem também juntar-se ao grupo das cartomantes.

Eu não faço rigorosamente nada. E ainda bem, que eu trabalhar ’tá quieto…

O meu acompanhamento consiste em levar o cliente a perceber que consegue o que ele quiser e acompanhá-lo no processo (dele) de definir as melhores etapas para lá chegar.

Como? Querem saber? Ok, ok, eu explico um bocadinho…

Depois de trabalhar o objetivo com este cliente para algo que o satisfaz mais e com o qual se sente mais à vontade – “quero, daqui a 6 meses, ter feito o necessário para despertar o interesse de empresas para o meu perfil” – começámos a trabalhar sobre coisas muito terra-a-terra.

O que é que já foi feito até agora?
O que não foi? Por que razão?
O que faz com que sinta que não consegue sozinho? (e é normalmente aqui que reside a maior parte do meu trabalho. sim, eu trabalho, imagine-se)
etc.
etc.

Não vou colocar aqui o acompanhamento todo, senão depois vocês fazem sozinhos e não me pagam a mim.

Durante o processo, acompanho o cliente a perceber quais as dificuldades, quais as melhores estratégias para que ele possa ultrapassá-las e depois a definir as ações que vai colocar em prática para atingir o objetivo a que se propôs. E isto é tudo em passinhos pequeninos de cada vez. Porque, se fosse fácil para ele, não tinha vindo ter comigo. Tinha feito sozinho.

Se este cliente – e os outros que acompanho – no final se sentirem mais felizes com eles próprios, eu ficarei também muito feliz por eles e assim podemos todos transbordar felicidade à bruta. Mas sei, de consciência tranquila, que não tive nada que ver com isso.

Um coach não acompanha ninguém a alcançar a felicidade. Utiliza técnicas práticas para levar a pessoa a atingir um objetivo concreto, pelos seus próprios meios, que até aqui não conseguiu atingir sozinha, seja por que razões for.

Então onde é que entra a felicidade nisto do coaching?

Pois… não sei… quando souberem, mandem-me um whatsapp… mas aviso já que sou capaz de não concordar…

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