As coisas importantes da vida acontecem num segundo

Jun 12, 2020 | NOT SO SECRET me

As coisas importantes da vida acontecem num segundo!

Sempre tive esta convicção, que está intimamente ligada à 4ª dimensão: o tempo.
Cada segundo é um acontecimento completamente diferente do anterior e do seguinte, e por isso torna-se em algo isolado.
O que faz com que tudo o que acontece agora, acontece neste segundo e não noutro.

  • Momento em que ouves pela primeira vez o choro do teu bebé: 1 segundo;
  • Exato instante em que te apercebes de que estás apaixonado•a: 1 segundo;
  • Tempo que o cérebro leva a bloquear o ambiente exterior para te proteger quando te dizem que tens uma doença incurável: 1 segundo;
  • Desviar o olhar da estrada e morrer ali: 1 segundo;
  • Fração que o Universo leva até ficar imóvel quando sabes que vais ser pai: 0,1 segundo 😉
  • Tempo que levas a precisar de te sentar quando recebes a notícia de que perdeste alguém próximo: 1 segundo;
  • Momento em que o teu corpo desliga e deixas de pertencer a este mundo: 1 segundo;
  • Duração da palavra “Sim” quando ganha o valor de construir uma vida inteira ao lado de alguém: 1 segundo (bom, há gente que leva mais um bocadinho, vá);

E um segundo, por vezes, é demasiado tempo

Ontem a Emma caiu do sofá. E o meu coração levou menos de 1 segundo a parar.

Um segundo. Foi de quanto precisei para experimentar o sabor do verdadeiro medo pela primeira vez na vida.
Para não saber o meu nome, nem onde estava, nem aquilo que estava a fazer no segundo imediatamente antes, quando a vida era boa, a realidade era outra e estava tudo bem.

Um segundo foi o necessário para que o hipotálamo e a amigdala tomassem conta do cérebro e o meu corpo aumentasse drasticamente a temperatura até começar a transpirar, o ritmo cardíaco fosse elevado até que se tornou impossível controlar a respiração e a boca secasse como se lá fora estivesse um calor insuportável.

Um segundo foi o que demorei a reagir! Foi quanto levou a tirá-la do chão, onde tinha caído sem qualquer tipo de apoio que não fosse o da sorte de o sofá ser baixo e o facto de ter o corpo de borracha com que os bebés vêm de fábrica.
Um segundo foi o que levei a scannear a Emma de alto a baixo para garantir que não via sangue ou nada que me parecesse fora do sítio. Ou que me parecesse estranho. Ou que me parecesse qualquer coisa, porque nem sabia bem de que é que andava à procura.
E menos de um segundo foi o tempo que levei a apertá-la nos meus braços.

Um segundo foi o tempo que demorou para começar a chorar como nunca tinha ouvido. A espernear com tanta energia que temi que me saltasse do colo.
Desespero, medo, pânico, tudo misturado, com um olhar fixo no meu, completamente perdido sem compreender o que acabava de lhe acontecer.
E não tem de compreender! Como é que pode compreender?
Ela não sabe que cair no chão vai passar a ser uma coisa banal, sem qualquer importância de maior, que acontece todos os dias a toda a gente. Não sabe que se vai levantar, olhar-me, sorrir e recomeçar a correr numa direção qualquer.
Nunca lhe tinha acontecido e por isso foi tão assustador como a maior das tragédias.

Tal como nunca o meu coração tinha parado e isso foi assustador. Sei que vai parar umas quantas vezes à medida que ela se for aventurando na vida e espero que seja cada vez menos assustador. Mas o coração nunca me tinha parado. E ontem parou.
E só quando lhe tirei a chucha da boca e a vi esboçar-me um sorriso a dizer “Está tudo bem, dadá” é que o meu coração voltou a bater.

Receio bem que vá ser sempre assim. O meu coração pára e só quando ela me tranquilizar, me disser que “Está tudo bem, dadá.” é que ele volta a bater.

Um segundo! Foi o tempo necessário para perder a noção de existência, morrer e voltar.
É, por isso, importante perceber aquilo de que necessitamos para viver plenamente: um segundo de cada vez.

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