Como se cria uma pessoa racista?

Ago 14, 2020 | COISAS DA MENTE

Como se cria uma pessoa racista? – Nota introdutória

Acerca deste texto sobre como se cria uma pessoa racista, é importante esclarecer desde já que este artigo só pode ser lido por criaturas que consigam distinguir conceitos como compreender, aceitar, concordar, etc. Se, para ti, é tudo o mesmo, vai antes ler outra coisa…

Por que razão são algumas pessoas racistas?

O tema continua tão atual como há 100 anos. Talvez mais.
Por que razão, com acesso tão generalizado à informação, cada vez melhor formação académica, facilidade de conhecer outras culturas, continuam pessoas a ser racistas?
As possibilidades de resposta são muitas e todas são, certamente, boas. Existem inúmeras razões que podem influenciar a criação de uma atitude, comportamento e/ou crença racista.

Não tenho intenção de as visitar todas – tenho mais que fazer – mas interessa-me o construção psicológica do racismo. Acredito que essa compreensão pode ser uma base sólida para a solução do problema. Em princípio, estamos de acordo sobre o racismo ser um problema. Certo? Certo…

Então, por que razão são algumas pessoas racistas?

1. dificuldades em compreender/definir o racismo

Ora, começa logo por aqui. Há muito boa gente que vos vai dizer que ser racista “é não gostar de pretos“.
Gosto muito e tal, considero que é de uma ignorância tão assustadora que roça no ridículo, mas na cabeça de muitas pessoas é isto. E, portanto, desde que “gostem de pretos, ciganos, etc.” não há nenhum problema em querer que vão “lá pra terra deles“.

Enquanto não começarmos a educar as pessoas, a coisa não avança. O primeiro problema desta construção psicológica é que os racistas acreditam muitas vezes não o ser. “Eu não sou racista coisa nenhuma. Mas ninguém me tira da cabeça que, por razões históricas, os africanos não são tão inteligentes como nós“… e por acreditar que o argumento está bem construído, vive-se uma vida inteira mergulhado em racismo sem se saber.
É urgente que as pessoas compreendam a diferença entre dizer “aquela preta que está ali” ou “aquela gaja que está ali“, se se tratar de uma mulher branca. (não que seja fã da expressão gaja…)

A definição de racismo assenta no conceito de hierarquia entre raças, assumindo que algumas têm mais valor que outras.

Vamos lá ver. A mim parece-me estúpido considerar o valor de alguém baseado na sua cor/etnia/origem/raio-que-parta. Mas é necessário compreender e aceitar o facto de que muita gente construiu a sua personalidade com base nesta crença. Vamos ver quão fácil é isso acontecer? Vamos, pois.

2. sempre a mesma culpada: a infância

Acontece que, quando nascemos, não temos sistemas de valores, nem crenças, nem sabemos por que razão há pessoas com um tom de pele diferente do nosso. Seja qual for o nosso.
Também acontece que esses sistemas de valores, crenças, etc, são construídos com base em quem nos rodeia. Tcharan…!
Se crescerem num ambiente de ódio relativamente a outras raças, é provável que o desenvolvam.
Se crescerem num ambiente onde “somos todos iguais“, mas à noite contamos anedotas de pretos, é provável que cresçamos com a convicção de que não faz mal gozar com eles, desde que seja a brincar.

Devo ressalvar que apoio esta teoria. Não faz mal fazer humor com tudo e mais alguma coisa, desde que o objetivo seja unicamente esse: fazer rir. Por isso, deve também fazer-se anedotas com brancos, amarelos, com aqueles que por esta altura estão muito indignados a ler isto, comigo por estar a escrever sobre isto num tom humorístico, etc. Deve fazer-se humor com tudo. O racismo não tem nada que ver com humor. Talvez deve ter incluído isto na nota introdutória.

Se crescerem num contexto onde vos dizem que nunca se pode brincar lá fora porque o bairro é frequentado por um certo tipo de pessoas, é provável que cresçam a acreditar que todas as pessoas “dessas” representam um perigo.

Isto acontece porque na infância somos autênticas esponjas dos valores daqueles que nos rodeiam e daquilo que nos ensinam.

Já escrevi aqui que sou grande fã de saber que o ensino considera importante explicar a crianças de 13 anos onde é os reis portugueses iam buscar especiarias em 1500. Acredito que isso terá um impacto incomensurável nas suas vidas.
Ainda assim, tenho para mim que talvez fosse melhor ensinar-lhes ética e psicologia (calma! com linguagem adaptada às suas cabecinhas lindas), que lhes fizessem construir valores mais tolerantes, lidar melhor com as suas emoções, etc. Bom, adiante…

3. tendemos a relacionar-nos com espécimens como nós

O ser humano é esquisito. A esta altura do campeonato, já deves ter percebido isso, certo?
Não somos fãs, e muito menos o nosso subconsciente, de passar a vida a sermos contrariados. É cansativo estar sempre a ter conversas internas sobre se estamos certos ou se é melhor ver as coisas de outra forma.
Vai daí que preferimos andar rodeados de pessoas que pensem mais ou menos como nós, com os mesmos tipos de interesse, com o mesmo tipo de crenças, cultura, etc.
Atenção que não estou a dizer que rejeitamos o resto. Estou a dizer que sentimo-nos mais confortáveis assim.
E até sei que há muitos que preferem, justamente, rodear-se do que é diferente, alimentar-se de construções alternativas às suas, viver através dos olhos dos outros… Eu sei que há. Mas esses, em princípio, não são racistas e por isso deixem-nos lá estar sossegados.

4. somos demasiado rápidos a julgar

Mais uma vez, sistema de valores. Se toda a vida aprendi e cresci com a “informação” de que as pessoas que fazem certas coisas de determinada forma são más (“porque o meu pai sempre disse que….“), então vou chegar à fase adulta com essa convicção.
E acontece que, porque o nosso cérebro adora o modo automático (porque é um preguiçoso e passa a vida a poupar recursos cognitivos – depois falo disso, se me apetecer), faz julgamentos também automáticos com base no nosso sistema de valores.
Mais, somos ótimos a fazer generalizações. Ainda mais se tivermos em conta a distância.

Querem ver?

Se, numa manifestação, pessoas de cor vandalizam carros que estão estacionados, “depois não querem que as pessoas sejam racistas. Olha pra aquilo”. Somos ótimos (e rápidos) a meter tudo no mesmo saco. Porquê? Porque o nosso cérebro é preguiçoso e não fazer isso dá mais trabalho.

Mas querem ver a noção da distância?

Os ciganos não se integram, vivem à margem, a maioria rouba ou trafica, são agressivos, mas eu conheço um no meu prédio que é muito bom moço.
Quando adicionamos proximidade às coisas, é mais difícil generalizar e passamos a conhecer detalhes, rotinas e cada caso é um caso. Tenho a certeza de que “os ciganos continuarão a ser um problema gravíííííííssimo“, mas se amanhã for viver outro para o meu prédio vou descobrir rapidamente que “este, só por acaso, também é fixe“.

5. lidamos mal/temos medo da diferença

Já deves saber que o ser humano lida mal com o desconhecido. Ao primeiro sinal de algo que não conheces, a primeira coisa a fazer é pára tudo!
Entre outras coisas, deixa-me dizer-te que isso vem do facto de na tua infância (é sempre a mesma culpada) teres passado o tempo a ouvir coisas como “não faças isso“, “não mexas aí“, “se fizeres isso aleijas-te“, “vais cair“, etc.
Não é muito complicado de explicar. Os papás & mamãs, com toda a sua boa, mas labrega, intenção, acham que estão a proteger as crias. Acontece que ao longo de anos a ouvir a mesma coisa todos os dias, vezes sem conta, é criada a crença de que a melhor forma de lidar com o desconhecido é não fazer, não mexer, não experimentar, não tocar, não nada!
Tornamo-nos então seres que desconfiam naturalmente de tudo o que não conhecem. Como a distância ajuda à desconfiança, o “cigano nunca pode ser bom moço” até ir viver lá para o prédio e eu perceber que não preciso de ter medo de ele ser diferente.

6. somos territoriais

Desde há algum tempo, cresceu um movimento que diz que “eu não sou racista, mas acho que os nossos devem estar primeiro“. Adoro, porque me parece uma forma muito fofinha de esconder…. racismo.
Mas isso mostra que temos uma construção territorial. Em princípio não te deve chocar muito, sabendo que os tempos nómadas já lá vão. A partir do momento em que nos instalámos, passámos a desenvolver um sentimento de posse sobre os lugares onde estamos e aquilo que utilizamos.
Então, vir gente de outra terra “roubar empregos, subsídios, lugares de estacionamento e até aquelas moedinhas para colocar nos carrinhos de supermercado” é uma ofensa visceral com a qual não é possível viver.
Isso, para além de ser tolo, deve-se ao facto de as pessoas duvidarem frequentemente do seu valor e acharem que se tiverem de lutar pelas coisas, não as vão conseguir. Assim, “não queremos que venham para cá outros ter coisas de mão beijada“, porque assim arriscamo-nos nós a não ter as coisas de mão beijada e a ter mesmo de as merecer, e tal…

Há muitas mais razões…

Existem, naturalmente, muitas mais razões para construir uma personalidade/comportamento racista. Desde ausência e/ou manipulação da informação, eventos mundiais, experiências pessoais traumáticas com pessoas de outras etnias, etc, muitos são os fatores que influenciam este tipo de comportamento. Por exemplo, deixei de fora, propositadamente, o facto de o racismo não existir num único sentido branco > preto.

Ser mais aberto, julgar menos, não generalizar, saber colocar em causa as nossas crenças e lidar com as nossas emoções parece-me um bom ponto de partida para inverter a situação. Mas algo me diz que é bem mais fácil escrevê-lo aqui do que vê-lo colocado em prática.

Porque sou uma pessoa pouco inteligente e muito menos criativa, algumas das ideias mencionadas estão por aí na internet (aqui, por exemplo), escritas por pessoas que são mesmo espertas.

OUTRAS COISAS QUE TENHO DITO

Coisas que aprendi depois de 10 dias sem telefone

Coisas que aprendi depois de 10 dias sem telefone

Como são capazes de ter visto nas redes sociais, espatifei o vidro do meu iPhone. (gosto de dirigir-me no plural, como se houvesse mesmo mais do que uma pessoa a ler isto e que essa pessoa não fosse eu...) Nada de entusiasmante, como tudo aquilo que me acontece....

As coisas importantes da vida acontecem num segundo

As coisas importantes da vida acontecem num segundo

As coisas importantes da vida acontecem num segundo! Sempre tive esta convicção, que está intimamente ligada à 4ª dimensão: o tempo. Cada segundo é um acontecimento completamente diferente do anterior e do seguinte, e por isso torna-se em algo isolado. O que faz com...