À conversa com o Desapego

Fev 10, 2021 | COISAS DA MENTE

(Há algum tempo aconselharam-me a falar com as minhas emoções. Bem mandado, assim fiz. Algumas conversas têm sido ótimas, outras difíceis, outras uma seca do caraças. Decidi colocá-las aqui.)

 

Ricardo: Bem-vindo, Desapego.
É quase irónico receber-te. És mais daquilo que vai que daquilo que chega (risos).
Desapego: Olá. Obrigado.
Sim, sou frequentemente associado ao que se perde, ao que deixa de se ter. Ainda que, em bom rigor, isso seja uma associação incorreta, já que o meu propósito é que se aproveite plenamente o instante presente.

Mas tu só existes na perda…
Mas tudo é perda! Nada é para sempre.
Eu “só existir na perda” é precisamente a ilusão que faz com que seja considerado negativo. Enfim, e até na perda me tentam evitar.

(Pois, pois… excelente começo. Bom, adiante…)

 

Compreendo… Olha, tu és originário de onde?
D: Do latim. Eu descendo de “Des”+”Apego”, que já vem de “Pegar”, do latim PICARE, “trazer consigo, ter em si”.

Que giro. Mas então és a definição literal de deixar de ter?
Pode dizer-se que sim. Contudo, isso não é nenhum dilema. A questão central é que as pessoas acham que podem garantir o Ter. Por isso é que lidam mal comigo.

E depois és menino para causar estrago, devastação e catástrofe?
Epá, sim! (risos) 
É como tudo, quando não sabem lidar comigo, é-me difícil gerir e às vezes também não facilito.
Eu, pessoalmente, não tenho nada contra ninguém. Acho sinceramente que pertenço ao processo natural das transições e até provoco mais estragos porque as pessoas teimam em não aceitar que tudo é passageiro.
Responsabilizam-me a mim, embora isso tenha origem numa relação complicada que a maior parte dos seres tem com a minha comadre Segurança, sabes?
Querem agarrar-se a tudo para se sentirem seguros, quando a verdadeira segurança existe na compreensão de que ela não depende daquilo que tens.

Ok. Então e conselhos para te tratar com respeitinho?
Reconhecer que tudo é passageiro já é um bom começo. Assim que se conquista verdadeiramente essa aprendizagem, experiencia-se um fenómeno incrível, que é o de estar presente. Vive-se muito tempo entre o que já passou e o que queremos que aconteça, mas pouco no momento que está agora a acontecer.

Hmm… hmm…
Depois, libertar-se de experiências e planos…

Mas não se pode viver sem planos!
Sim, claro. Mas é possível viver aceitando que desenhar algo e controlá-lo são coisas totalmente diferentes. Desejar é saudável. Planear significa prever como vai acontecer. Só que isso nem sempre se controla.

Hmm… E mais coisas?
Aceitar a mudança como parte vital da existência. Tudo muda constantemente. Estamos sempre em processo de perder umas coisas e ganhar outras.

Dito assim até parece fácil.
O mais difícil é quando não há rumo!
Repara, se sabes que queres ter um estilo desportivo, às tantas desapegas-te facilmente de fatos e gravatas. Certo?
Quando não sabes o que queres arriscas-te a apegar-te a tudo para não perder nada que possa ser importante. Só que isso é apenas uma ilusão.

Mas apegas-te a fatos de treino!
Não te apegues! Vive a felicidade que o fato de treino te dá enquanto desejas este estilo, sem receio de que amanhã possas querer outra coisa.

(É isso. Não te apegues a coisa nenhuma… certo…)

 

Então o desapego é um certo desinteresse?
A Priberam diz que sim – risos – mas eu discordo. Se des-apegar é o mesmo que des-interesse, então seria justo fazer equivaler apego a interesse. Contudo, as pessoas apegam-se frequentemente a coisas que lhes fazem mal ou que as impedem de se sentir melhor, não por interesse, mas pelo medo de lidar com a perda, ou com a incerteza.
Não se trata de recusar nutrir interesse seja pelo que for para evitar a dor, mas de estimar o momento presente. Este, o único que há, ainda que, inevitavelmente, termine e dê lugar a outra coisa.

A regra de ouro é abrir mão?
Não! Justamente, é usá-la para segurar outra coisa enquanto o tempo o permitir. Depois eu volto.

Pode nunca se aprender a lidar contigo?
Opá, há tanta gente que nunca o faz…

Olha, muito obrigado por este momento. Voltamos a ver-te?
A mim? Sempre! 🙂

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