À conversa com a Culpa
[Esta vai ser das boas… ou não!…]

Ricardo: Olá, Culpa. Preferes Culpa? Responsabilidade? Autoria?
Culpa: Acho que Culpa é o mais acertado. A Responsabilidade pode existir sem intenção, mas o meu propósito é massacrar pela intencionalidade. Tenho para mim que a Responsabilidade é meio betinha, sabes?

“Ah, a responsabilidade é minha, mas não fiz por mal”. Oh pá!…

Quanto à Autoria, às tantas ainda se confunde com alguma coisa boa e eu não quero cá misturas.

Tu nasceste do latim, não é?
Sim, como na maior parte das palavras. Naturalmente, tenho origem na rigidez, por isso adoto praticamente a minha forma original do latim colpa.
Sou construída na infância quando os putos fazem asneirada e os otários dos “maduros” os repreendem como se o mundo fosse acabar.
Não há nada melhor para a minha constituição do que um progenitor idiota a gritar:

“Eu não te avisei?!” ou “Vês o que fizeste?!”

Como se partir um copo fosse a cena mais importante que o mundo tem para gerir.

Tens origem na educação parental…
E não só. A educação religiosa, com o “peso de confessar a culpa”, a pressão social na escola, onde pisar o risco dá direito a ser punido, etc. Tudo isso são alicerces ideais para a minha criação.
E depois ainda há a mania das punições publicas, à frente de toda a gente.

“Diz lá às pessoas o que fizeste ontem? Partiste um copo, não foi?” – que imbecilidade.

Eu, nestes casos, até nem gosto de dominar a cena sozinha. Chamo a minha bff Vergonha e fazemos uma festa de arromba na personalidade do serzinho pequenino. Hehehe, é a loucura.

[pois, pois, viva a desbunda]

Mas é positivo que as crianças tenham regras, não é? E talvez já tivesse sido avisado várias vezes para ter cuidado com o copo.
Isso é tão lerdinho, man. Porra! É claro que têm de ter regras, mas vamos lá ver, se queres ensinar regras, tira-lhe a merda do copo da mão antes que o parta. A regra é “Não brincar com copos de vidro”. Não é brincar sem os partir.
E se o partir, assume que Eu te pertenço a ti porque não lho tiraste quando já antecipavas o resultado.
Além disso, o puto quando brinca com o copo está perfeitamente convencido de que domina a cena e não o vai partir.

Mas isso é por não ser consciente do que pode acontecer, por falta de experiência, e porque recusa ouvir os alertas dos pais!
Certo. Porque tu quando conduzes a mandar mensagens também estás consciente de que não te vai acontecer nada e ouves com atenção os alertas da PSP. Vai-te encher de moscas, otário.
Enquanto não existir uma cultura de educação das crianças centrada no erro sem punição, mas sim pedagogia orientada para a aprendizagem, cá estarei.

Enquanto, mesmo que o erro tenha sido de caráter e propositado, não existir uma cultura de educação das crianças centrada em saber gerir as emoções e expressá-las sem a necessidade de certo tipo de comportamentos para chamar a atenção, eu cá estarei.

[hmm… a culpa é daquelas emoções giras, não é?]

Olha, adiante, então e cá estarás para quê? Para que raio necessitamos de ti?
Para que te corroas por dentro. Não te parece óbvio? Hmmm?! [silêncio constrangedor…]
Concretamente, eu provenho do reconhecimento de que se agiu mal. Da consciência de que o comportamento não está adequado àquilo que é moralmente correto ou expectável.

Mas isso não faz com que vejas tudo negativo?
Mais ou menos. As pessoas gostam de me criticar. Vêem mal em tudo.
Eu na realidade existo para que as pessoas sejam melhores. É a empatia pelo outro que me chama. Repara que os que não me sentem estão-se nas tintas para os outros e para as consequências do que fazem.
A principal razão para me vivenciar é a consciência de que é preciso fazer melhor.

[e eu a pensar que eras completamente inútil]

Então, mas isso é bom?
É. Mas a bosta já está feita. E por isso eu tenho de ser paga pelos meus serviços. O meu preço é um peso no corpo todo, uma pressão constante, medo da consequência e remorso. É o sistema límbico, no cérebro, que se ocupa disso.

Opá, que amoroso! [em tom irónico]. Tu és menina para ser muito poderosa?
É assim, não quero estar aqui com gabarolices, mas sou capaz de me instalar num cérebro durante horas por causa de uma tablete de chocolate. E acho que me fico por aqui…

Mas depois desapareces, não?
Depende, sabes? Há pessoas que deixam que as absorva durante muito tempo. Há pessoas que são manipuladas para me sentirem.
E isso é ótimo! Para mim, claro. Não para a pessoa.

Posso dizer que, se estiver virada para trabalhar à séria, posso bem causar lesões corporais, perda de motivação, tristeza profunda, entre outras coisas mais sérias. Posso inclusivamente levar ao isolamento. E, se estiver com aqueles rasgos de inspiração, eventualmente até posso conseguir fazer com que a pessoa se magoe a ela própria.

[ah… mas que maravilha!]

Às vezes também te sinto…
Eu sei. Lamento.

É curioso que a Culpa diga Lamento em vez de Desculpa.
Claro. Lamentar é uma manifestação de sentimento por outra pessoa ou pelo que lhe acontece. Pedir des-culpa é pedir que se lhe retire a culpa. E a culpa de me sentires não é minha.
Sentes-me por responsabilidade tua. Por achares que os erros que cometes são imperdoáveis, falhas de caráter, de valores morais. Embora sejam os mesmos erros que facilmente perdoas aos outros porque “toda a gente comete erros”. Não é assim?

É. E nesse sentido, como é que te mando pastar vacas?
Queres que venha pra aqui dar a receita da minha extinção, é isso? Pois não. Com certeza. (em tom sarcástico)
Bom, para me eliminarem, é necessário justamente substituirem-me pela Responsabilidade. É necessário ter a consciência de que se é responsável pelo que se faz e pelos erros que se comete. No entanto, Eu sou uma tentativa de controlar as coisas à minha volta. Eu sou uma tentativa de responder a padrões morais impostos. Por isso é que cada pessoa me sente em situações diferentes. Mudar essa mentalidade de assumir que se é responsável – que exige ação, mas não culpado – que exige punição, é algo que faz com que eu desapareça. Em casos onde as pessoas são invadidas constantemente por mim, a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) pode ser uma grande ajuda. Por outro lado, muitos procuram o perdão dos outros para se libertarem de mim. Isso é fofinho, mas não vai lá. Para que eu me ponha na alheta, é preciso o teu próprio perdão. Só esse é que me manda realmente à fava!

Ah, boa! Terapia e auto perdão… Então vai à merdinha, sim?

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