À conversa com a Contrariedade
[Aviso desde logo que já vou para esta de trombas!]

 

Ricardo: Olá, Contrariedade. Bem-vinda.
Contrariedade: ….

R: Contrariedade? Anda lá…
C: …

R: Contrariedade, estou a falar contigo.
C: Não me apetece falar.

R: Então o que é que te apetece?
C: Nada.

R: Oh! Deixa-te de tretas.
C: Já te disse que não! [em tom de frete]

 

[um pouco de pedagogia e paciência para ver se isto arranca]

 

R: Olha, deixa isso para lá. Fala-me antes de ti. Por que razão ficas assim? Explicas-me?
C: Não é óbvio?!
Eu sou a manifestação daquilo que vai CONTRA uma NECESSIDADE: sou a Contrariedade.
Assim, quando uma necessidade se depara com um obstáculo que a impede de ser satisfeita, nasço eu.

R: Sei que és muito amiga da frustração.
C: Sim. Andamos quase sempre juntas. Inegavelmente, temos as duas um feitio parecido.

R: E como é que te manifestas?
C: Não sabes? Então por que razão estamos a ter esta conversa?

R: …. [silencio constrangedor]
C: Eu sou o famoso Amuo! Sou os braços cruzados, o desvio do olhar, o tratamento de silencio, o “Está tudo bem”, ou  “Deixa-me estar”. Assim como sou a “cara de enterro”, o “burro amarrado”, etc.

R: E por que razão hás de ser assim?
C: Porque ninguém gosta de sair a perder. Eu existo quando tu não tens o que desejas.

 

[não vim para aqui falar de mim, mas está bem]

 

R: Eu sei!!! Até irritas!
C: Ah, sim, obrigado! Também sou muito amigo da Raiva. [em tom sarcástico]

R: Claro que és. Bom para ti. [em tom irónico]
E por que não podem ser as coisas como eu quero?
C: Isso não sei. Assim como não sei por que raio haveriam de ser como tu queres?

R: Porque eu quero que seja assim! Pronto!
C: E é mais importante querer ou “querer assim”?
Mais importante avançar ou ter razão?
Mais importante obter ou não dar o braço a torcer?

 

[blá blá blá, blá blá blá]

 

R: ….
C: Há necessidades mais fortes e difíceis de rejeitar que outras, não é?

R: E o que posso eu fazer?
C: Compreender a necessidade que está por detrás de mim e a sua origem. Depois, encontrar uma forma alternativa de a satisfazer.

R: Mas às vezes nem isso funciona.
C: Aí já não te vale de nada conversares comigo. Vai falar com o Orgulho.

R: Talvez.
C: De certeza [em tom paternalista]
Repara, vive-se numa dualidade dor/prazer. Busca-se o prazer; foge-se da dor (Freud).
A partir do momento em que satisfazes a necessidade que me deu origem, libertas-te da dor que isso te causava e eu deixo de existir.
Se continuas a não conseguir avançar, significa que a tua dor vem de outra emoção e então já não é comigo.

 

[esplêndido!… as emoções vêm em rebanho]

 

C: Nem tudo é como queres. Este é um conceito ao qual é fácil aderir. Em contrapartida, torna-se difícil aceitar que não é como queres aquilo que desejavas muito que fosse de uma certa maneira.

R: Pois, eu sei. Achas que não sei? Isso vem de onde?
C: Isso tem que ver com várias coisas:

  • infância com regras que nunca eram cumpridas
  • hábito de manipular para se obter sempre o que se quer, mesmo que tenha de se fazer algo errado para conseguir
  • viver com a crença dos finais felizes, não reconhecendo – nem aceitando – a inevitabilidade de certas coisas
[não te metas onde não és chamada que já me estás a irritar]

R: Então e para quê é que serves, caraças?! Só para chatear?!
C: Para aprenderes que não és soberano. Que tens um lugar na existência, como tudo e todos. E que a ideia infantil de que tudo tem de se dobrar à tua vontade não passa disso mesmo.

R: Tenho de me aguentar à bomboca, é isso?
C: Isso já é uma forma derrotista de ver as coisas. Assim vais passar a vida a chamar-me.
Além disso, nem sempre deves aceitar o que a vida te coloca à frente. Às vezes, é preciso contrariar-me a mim. [risos]

R: E decido à balda ou tens um manual de instruções?
C: Hehe. Era bom, não era?
Não se sabe ao certo quem escreveu, nem garanto que seja a resposta de que andas à procura, mas diz assim:

Que eu tenha a serenidade para aceitar o que não posso mudar
A coragem para mudar o que me é possível
E a sabedoria para distinguir os dois.

R: Muito bonito, sim senhor, mas não sei em que é que me ajuda.
C: Conversa, então, com a Sabedoria.

 

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