À conversa com a Traição
[Lembro-me bem de ter tido esta conversa. Já foi há algum tempo. Aprender a lidar com a Traição é tudo menos fácil. Se esta conversa fosse hoje seria, certamente, muito diferente. Talvez voltemos a falar um dia destes…]

Ricardo: Olá, Traição. Não te vou dizer que és bem-vinda uma vez que estaria a ser hipócrita. Espero que compreendas.
Traição: Olá. Não te preocupes. Receções deste género são-me muito familiares. É o costume, toda a gente me usa mas ninguém quer ter de conversar comigo.

R: Causa-me alguma confusão que uma emoção com a tua carga negativa possa ter sido brindada com tantas formas de existência.
T: Sabes como é. Faz-se o que se pode. Posso existir em modo de deslealdade, hipocrisia, rasteira, inconfidência, emboscada, farsa, impostura, omissão, etc… Não me queixo.

R: Mas a associação mais comum à tua imagem é a infidelidade…
T: Isso é triste, sabes?. Fala-se em mim e as pessoas pensam logo em adultério. Há tanta boa traição para se fazer e as pessoas só se preocupam com o mesmo.
Enfim, é coisa da religião. Se bem que, na Católica, nem sequer sou famosa por isso. É mais por aquela cena das moedas.
Mas catalogaram-me assim e agora para me livrar disso é o cabo dos trabalhos.

[claro, que maçada]

R: És a causadora da maior cilada da história religiosa e não te chega?
T: Pelo menos podiam ter-me oferecido um pecado capital. Afinal de contas, fui eu quem ajudou a tramar o filho do Senhor. É um bocado injusto, não é? Que raio fez a Preguiça para merecer ser pecado capital em vez de mim? Que fui atriz principal numa fábula que é conhecida 2000 anos depois?! Ah, pois, disto não se fala.
A Preguiça passa os dias inteiros a fazer o quê? Nada! – Resultado? Pumba, toma lá o estatuto de pecado capital.

R: Pois, pois, pois, pois, pois… Olha, em primeiro lugar, tu apareces por que razão na cabeça das pessoas?
T: O mais comum é o Medo, quando a alternativa presume uma consequência pior. Noutra vertente, pelo Poder, em que trair transmite um sentimento de superioridade e de impunidade.
Mais raramente do que se possa imaginar, apareço por maldade.
E também apareço por ossos do ofício. Por exemplo, naqueles filmes em que tem de se trair o melhor amigo ladrão porque se é polícia à paisana mas o amigo não sabia…

R: Em qualquer das vertentes, gostas de chegar pela calada, não é? [em tom de gozo]
T: Ahaha. Boa, boa. Nunca tinha ouvido essa piada. Sim, já sei que sou muito má e que faço tudo pelas costas. [gargalhada forçada]
Também é boa esta piada das costas. Podes usá-la pra próxima.
De qualquer forma sei perfeitamente que é difícil alguém nutrir alguma simpatia por mim.

[coitadinha, realmente]

R: Pudera. Já viste bem a tua utilidade? És um bocado “chapada na cara”, não?
És dotada de uma certa brutalidade. Crueldade, até.

T: Não chego a ser tão bruta nem tão cruel como a minha arqui-inimiga Honestidade, mas as pessoas teimam em preferi-la.
Enfim, é o que há.

R: Acho que é preciso teres uma certa moral para comparares a tua falta de sensibilidade, de empatia, de seja-lá-o-que-for com a Honestidade.
T: Olha, traz frequentemente tanto ou mais sofrimento que eu.
Ainda assim, eu percebo o que dizes. Afinal, sou um bocado ambígua até nas minhas origens.

R: Por falar em origens, tu vens do latim Tradere, não é?
T: Mais ou menos, sim. Venho do substantivo traditio, que vem ele de tradere, que significa “entregar, dar”.

[há coisas do diabo no latim…]

R: Entregar? [risos] Dar o quê? Facadas nas costas? [risos]
T: E não é dar? Ou pagas? Só se dão coisas boas, queres ver?
Olha o caso da Verdade, por exemplo. Passa vida a dar coisas que ninguém quer, mas não há viva alma que se vire contra ela. Já eu, é o que é.

R: Talvez por seres uma besta quadrada cuja única habilidade é trazer sofrimento às pessoas?!! [em tom enraivecido]
T: Creio que o teu “entusiasmo” te leva a esquecer de com quem estás realmente a falar…

R: Achas que não sei?! Dá-me jeito personificar-te. É só isso.
T: Não vejo porquê.

R: Porque posso culpar-te a ti. Porque representas tudo o que é mau.
T: Na verdade represento, por definição, “o rompimento ou violação de um acordo previamente estabelecido”. Parece-me a mim que há pior que isto. [em tom sarcástico]

R: Para a Confiança, duvido.
T: Certo, mas isso é lá com ela. Afinal, respiras, não respiras? Tens saúde, não tens? Há quem não tenha.

[espera, acho que já percebi]

R: Então é trair à bruta e estar-me nas tintas desde que não me constipe, é isso?! [em tom irritado]
T: Claro que não. Mas usares-me contra outro ser humano é duro, custa muito. A menos que sejas um real FDP, usar-me é doloroso.
No entanto, seguir em frente faz parte do processo e recusares isso por causa da Culpa é uma forma de te traíres, também, a ti próprio.
É certo que uma das minhas consequências é fazer-te questionar uma parte do teu sistema de valores. Contudo, se esse sistema de valores não foi abalado, se a minha utilização é o melhor que sabes fazer com aquilo que tens, sem intenção expressa de causar dor nem retirar valor disso, segue em frente.

R: Como?
T: Com a coisa mais complicada de fazer para o ser humano: perdoares-te a ti próprio.
Boa sorte.

 

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