À conversa com a Tentação
[Lead me not indo temptation. Oh, who am I kidding? Follow me. I know a shortcut!  –  vai lá resistir à tentação]

Ricardo: [em tom meditativo] Preciso de resistir à tentação; Preciso de resis… Sai para lá, Tentação! Que raio estás aqui a fazer?!
Tentação: O que é que tu achas? Estou a tentar levar-te à ação: tenta+ação…. duh
Eu sou o que te tenta a agir.

R: E se há coisa que fazes é tentar. Irra. Percebo agora por que existe o hábito de pedir ajuda para não cair em ti. Sozinho é difícil.
T: Sim, embora o pior seja o Malamen. [em tom de piada]

R: Malamen?
T: “Não nos deixeis cair em tentação, e livrai-nos do Malamen”. Não sei quem é o Malamen, mas parece ser má rés. [gargalhada]

[queres ver que tem piada, a miúda?]

R: Combater-te é francamente difícil. Tens sempre tanto poder?
T: “A tentação é tão grande quanto a vontade de sucumbir a ela”.
Não sou eu quem digo. Foi Silke Zajonz, em 1970. Mas é um bocado assim. Eu tenho o poder que me dás.

R: Faz sentido! O meu pai nunca se sentiu tentado a comer chocolate. Diz que não gosta. Sempre admirei isso nele. Sempre quis ser igual. Só que eu gosto. Muito.
T: Mas isso é ótimo. Se te sentes muito tentado é porque queres muito. Caso contrário, não estarias nem aí para o chocolate. Certo?

R: Ora, tenho dificuldades em aderir à ideia de que isso é ótimo…
T: Então, se queres muito, faz! Qual é o problema?! Vai. Anda. Come lá o chocolate.

[quero muito, então siga… e o resto? que se lixe?]

R: Ainda que seja socialmente indesejável, tenho de confessar que compreendo esse teu ponto de vista. Sempre fui dos que acham que há uma linha muito ténue em querer e fazer. “Querido, eu não te traí. Quis mesmo muito, mas não fiz, por isso está tudo bem.”
A diferença entre fazer ou “apenas” querer fazer é francamente subjetiva.
T: E por pensares assim deves ser péssimo a resistir-me. Heheheh, tão bom [em tom diabolicamente alegre]

R: Sim, estou como o Oscar Wilde. Também resisto a tudo menos à tentação.
T: YES! És cá dos meus, pá. Bora! A vida é para ser vivida. Resistir para quê? Ser certinho é parvoíce.
Repara, se cederes a todas as tentações e te divertires à grande a fazer tudo aquilo que te apetece, no fim morres. Já se te portares muito bem e te privares de todos os prazeres, morres também. Então toca mas é a aproveitar enquanto eu ando por aqui.

R: Achas que eu não penso nisso? Por que razão achas que estou a falar contigo?
O meu problema contigo é o “E se?”. Isso entra-me de tal maneira na cabeça que se torna literalmente insuportável não saber o que está do outro lado. Sinto quase uma imposição de descobrir o que está por detrás do “E se?”.
T: Eu não te imponho coisa nenhuma! Eu tento levar-te à ação. Contudo, sejamos claros: se passas à ação é porque TU queres.

[sou sempre eu que faço tudo! E se eu quiser mandar-te à fava?]

R: E como é que faço para te ignorar?
T: Se a tua estratégia for ignorar-me, estás lixado com um F monstruoso. Quanto mais quiseres ignorar, mais te lixas. Ora não penses num elefante amarelo!
Ao invés de me ignorar, tens de me enfrentar. É o córtex pré-frontal dorsolateral que toma conta disso.

R: Ah, então é isso! Pronto. O córtex não-sei-quê… [em tom irónico]
T: Vamos lá a ver. Tu tens uma região nessa cabecinha linda chamada córtex cingulado anterior, parte do córtex pré-frontal dorsolateral e que regula as tuas decisões sensatas.

R: É o anjinho sentado no meu ombro? Aquele com calças caqui, de camisinha branca, muito bem comportadinho?
T: É esse mesmo. Quando estás perante decisões relacionadas com tentação, esse córtex cingulado anterior reconhece a necessidade de autocontrole e dá o alerta ao teu cérebro (William Hedgcock, 2012).

[ou, pá, onde é que esse já vai…]

R: Pois então posso dizer-te já que o meu córtex-coiso foi de férias há uns anos valentes e nunca mais deu à costa!
T: É aí que eu ganho muitas vezes o que quero!
O alerta para a necessidade de autocontrole, i.é., a atividade do córtex cingulado anterior, deve ser alimentada. Se não te treinas, podes perder atividade nesta região do cérebro e, consequentemente, a tua capacidade de me resistir.

R: Então não é só por ser parvo?! É uma questão fisiológica?
T: Não está provado, embora se acredite nessa teoria. Por exemplo, as crianças têm menos atividade nesta região e por isso são mais suscetíveis de se render a mim.

R: E como é que dou gás ao tal córtex-coiso pra elevar em barda o meu autocontrole?
T: Basicamente, há 4 métodos para exercer o autocontrole: (1) criar obstáculos para evitar a ação “errada”, (2) alterar a tua opinião sobre a ação em questão, (3) normas sociais como a comparação, por exemplo, e (4) punições: castigos, multas, impostos, etc (Duckworth and Milkman, 2013).

[já temos receita mágica – com ingredientes todos eles encantadores – vamos lá embora]

R: Pronto. Está decidido. Não só Abaixo a tentação, como também Viva o autocontrole.
T: Mais ou menos. Não quero estar a tentar-te [em tom de gozo] mas o autocontrole não é assim tão espetacular como parece. É uma ferramenta para atingir fins. Contudo, estes fins podem ser bons ou maus. (Liad Uziel, 2010)
Por exemplo, terroristas suicidas têm um autocontrole do catano. Mas são melhores pessoas por causa disso? Os psicopatas têm um autocontrole invejável, mas querias ser um? Da mesma forma, pessoas com grande autocontrole são excelentes mentirosos. A lista continua…

R: Mau, então em que é que ficamos? Nem sim nem sopas?
T: Em resumo, eu não sou sempre má. E mesmo quando sou, raramente sou uma desgraça irremediável.
Se eu existo, é porque tu desejas muito algo.
E ainda bem, já que é igualmente graças a pessoas que cedem a mim que o mundo avança. Se todos formos cordeirinhos a cumprir tudo direitinho, não há desafio das regras, não há descobertas alternativas, não há pontos de vista contraditórios, etc.
Eu não existo só para fazer o que “não se deve”.

[será que a felicidade eterna a dois no Éden tornar-se-ia tão aborrecida que comer a maçã foi a única maneira de isto ganhar sentido?]

T: Afinal, és tu quem decide quando me enfrentar ou me aproveitar. Naturalmente, para cada pessoa essa decisão é diferente.
Infelizmente, as pessoas lidam mal comigo por causa daquelas “beatas” dum raio. A Vergonha, a Culpa, a Cobardia, a Vulnerabilidade, a Crítica… Enfim, essas pacóvias que não te deixam aproveitar a vida como te apetece. Definitivamente, sou uma incompreendida.

R: Não sei se falar contigo me ajudou muito, Tentação.
T: Calha bem. Afinal de contas, eu não existo para te ajudar, mas para te tentar….

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