Sou super dotado. Vamos falar sobre isso?

Sou super dotado, vamos falar sobre isso?
Super dotado, superdotado, sobredotado, alto habilidoso, ou seja lá como for que lhe chamem agora. Também sou, por causa disso, multi potencial. Vamos falar sobre isso? Vamos pois!

Tive o meu diagnóstico há uns anos, com relatório psicológico, testes QI e QE, tudo o que tem direito…
Falo 5 línguas e toco 4 instrumentos sem nunca ter tido uma única aula de fosse o que fosse. Aprendo a ver. Ou a ouvir. Mas não sei bem como é que aprendo. E isso é mau quando preciso de aprender alguma coisa.
Na escola sempre tive avaliações muito oscilantes. Tão depressa tinha 20 valores a disciplinas cujos livros nunca abri, como chumbava àquelas que todos faziam com uma perna às costas. Depende se me interessavam ou não, acho eu.

Bom, desde logo, não há grande coisa que possa fazer sobre esta condição. Aparentemente, diz que tem que ver com uma certa atividade cerebral complexa entre neurónios, em certas regiões do cérebro. Ao que parece, já vim assim e além disso é hereditário. Sendo assim, muito obrigado mamã ou papá. Ou ambos.

Falei sobre isto uma vez com o meu pai.

“Gostava de ter sabido em criança. Gostava de ter sido acompanhado.”
“E achas que sabíamos? Há 40 anos? Que se falava nisso? E que tínhamos dinheiro para um psicólogo?”

Tem razão!
Creio que, quando analiso as coisas hoje, me confortaria ter vivido numa realidade onde pudesse ter sido devidamente acompanhado (quem não?). Vai que, na realidade que me calhou, teria sido literalmente igual ao litro ter sabido disto quando era puto.

Gostava de não me ter sentido constantemente fora de sítio. Miúdos da minha idade eram parvos, com brincadeiras sempre demasiado “infantis”. Eu não! Eu crescia (demasiado) depressa. Falava perfeitamente e corrigia os outros com 3-4 anos. Só me sentia bem com gente mais crescida. Não tenho amigos de infância, porque não me relacionava o suficiente para me lembrar sequer deles.

Poupem-me às interpretações hollywoodescas, pelo amor da santa senhora

Desde já, evitemos a visão romântica da super dotação, ou alta habilidade, encontrada no cinema americano. Por favor! Neste universo, um super dotado (nunca vi nenhum filme sobre umA super dotadA, mas imagino que seja apenas coincidência) é um tipo que faz fórmulas matemáticas que ninguém compreende e cujo propósito obrigatório é o de descobrir alguma coisa que salve o mundo. Ou pelo menos que descubra uma tecnologia, um buraco negro, ou a cura para uma doença qualquer.

Lamentavelmente, para quem vive esta esquisitice, há pouco de romântico na condição.

Howard Gardner e a Teoria das Inteligências Múltiplas

Antes de mais, e para evitar a tal interpretação acima descrita, é necessário compreender esta história da inteligência. Gardner é o tipo porreiríssimo que desenvolveu uma teoria importantíssima sobre o tema. Podem ler muitas coisas sobre isso mas, em resumo, diz que a inteligência não é apenas “uma coisa” – muitas vezes associada ao sucesso escolar – mas sim as capacidades ou aptidões em várias áreas distintas. Gardner define as seguintes inteligências:

  • Lógico-Matemática: operações numéricas (o tal tipo que salva o mundo nos ecrãs de Hollywood)
  • Linguística: capacidade de aprender idiomas, de utilizar a fala e escrita
  • Espacial: habilidades que envolvam a visão (é conhecido, por exemplo, que super dotados podem ter um campo de visão um pouco acima dos 180º)
  • Físico-Cinestésica: uma espécie de “inteligência corporal”, aquela que faz com que olhem para o outro lado da estrada se alguém estiver a olhar para vocês
  • Interpessoal: capacidade de “sentir” intenções, uma certa “sensibilidade” para a comunicação não verbal e/ou espiritual / Intrapessoal: compreensão de si próprio
  • Musical: o tal “talento inato” 🙂 compor, reproduzir, improvisar, etc.
  • Natural: reconhecimento e classificação de espécies da natureza
  • Existencial: reflexão sobre questões fundamentais da vida humana (acho que ninguém vive tão atormentado por isto como eu: quem sou? o que faço aqui? por que razão existo? para que serve isto? qual é o meu propósito?)

Ora, a super dotação é uma capacidade acima da média em um ou vários destes domínios. Estima-se que 2-3% da população mundial o seja.

Mas que maravilha que é ser super dotado. Só que não!

Exposto desta forma, parece que isto é um espetáculo, em várias áreas. #sóquenão

Ser mais “inteligente”? Há vários problemas com isto.

O primeiro é que as pessoas gostam pouca da diferença, digo-vos já.
Por isso, fui muitas vezes classificado de chico-espero, ou aquele que tem a mania. Mais tarde, chico-esperto já não espelhava de forma justa a inveja/raiva/constrangimento, pelo que passei a ser arrogante durante uma grande parte da minha vida. Ainda hoje.
É frustrante saber a solução para um problema com todos os poros do corpo, mas ser incapaz de explicar como se sabe. Vi-me muitas vezes ignorado, propositadamente desprezado, por ter a mania.

Na altura, a psicóloga que me acompanhou explicava que faço o mesmo raciocínio que toda a gente: analiso as possibilidades, pros e contras, comparo tudo e decido a melhor opção. A questão é que o meu cérebro faz isso tão rapidinho, que sou incapaz de consciencializar o processo.
Por um lado, no mundo profissional, à conta disto vivi mais problemas que promoções. Por outro, no campo pessoal, todos adoram a pessoa que diz “faz assim que eu é que sei“… 🤨

Cérebro SEMPRE a 1000km/h

Não consigo parar. Não dá. À noite, sou capaz de estar horas (mesmo!) no escuro a olhar para o vazio, porque o cérebro não pára. Há mais de uma década que tenho um padrão de sono de 4-5h / noite. Estou a tentar mudar isso com meditação, escrita e adaptação do ambiente luminoso à noite. E medicação.

Sou inútil a fazer uma coisa de cada vez porque parece que vou morrer de tédio. Só estou bem em stress permanente, com imensos projetos ao mesmo tempo. Que nunca acabo porque uma vez que tudo é muito efémero, farto-me deles antes de os acabar e preciso de passar rapidamente a outra coisa nova.
Analogamente, angustiam-me as rotinas e estou a aprender hoje a integrá-las na minha vida. Como imaginam, é ótimo para quem tem de lidar comigo mais de perto.

Como ando sempre a mil, sou orientado para objetivo cumprido > passa a outra coisa. Quer dizer que se me pedirem para abrir uma embalagem com uma tesoura, abro. Agora, a tesoura fica em cima da mesa, bem como o pedaço cortado, assim como a embalagem aberta. E há uma forte probabilidade de a gaveta de onde tirei a tesoura ter ficado aberta…

Discrepância emocional – não se pode ter tudo

Esta é boa. E não é que tenho sérios problemas emocionais? Imagine-se…
À primeira vista não se nota, mas existe uma lacuna importante entre o desenvolvimento cognitivo e o afetivo. Frequentemente, o resultado é que a gestão das minhas emoções torna-se uma tarefa impossível. Fui acompanhado há uns meses para aprender apenas a identificar a emoção que sentia, uma vez que nem isso era capaz de fazer.
Em suma, se tenho o controlo da parte intelectual, sou completamente manipulado pelo lado emocional. A instabilidade emocional faz com que expluda por nada, fico eufórico até extremos, ou facilmente depressivo. Lido mal com a contrariedade quando as coisas não são como idealizei. Sou facilmente intolerante com uma data de coisas que não suporto.

Vitimização

Juntamente com outras questões de educação, tem que ver com um processo constante de adaptação. Desde puto que raramente me senti bem em algum lado. As pessoas não compreendem a minha forma de pensar, nem eu a delas. Acontece que sempre fui eu o diferente da maioria. Vai que fui criando desde cedo uma estratégia de adaptação para ser aceite.
Isso transformou-se em vitimização, porque “ninguém me compreende”, ninguém me aceita, ninguém faz nada para me ajudar, etc.

Ainda hoje lido com isso e é um trabalho diário, difícil de ultrapassar. Não sei como é o caminho dos que lidam com vícios, mas imagino que se assemelhe, em alguns aspetos a isto. Passar os dias a esforçar-me para acreditar que o mundo não está contra mim, que quando alguém não responde não é porque não gosta de mim. Conseguir dormir à noite quando o chefe diz que amanhã precisa de falar comigo, por achar imediatamente que vou ser despedido.
Lutar para não desligar de relações com amigos, família, etc, porque “de qualquer maneira vão abandonar-me, por isso mais vale que seja eu a fazê-lo já“, ou porque as pessoas eventualmente morrerão e por isso talvez seja melhor não me agarrar demasiado…

Multi potencialidade

A lista de coisas pelas quais me apaixono não tem fim, embora não exista grande ligação entre si. Hoje posso acordar apaixonado por boxe, querer saber tudo sobre o tema e começar a praticar. Amanhã acordo virado para a culinária e aqui vão cursos online. No dia seguinte o vento sopra de Este e a vontade é fazer uma pós-gradução em História de Arte. À conta esta brincadeira tenho duas. Nenhuma em História de Arte.

A especialização nunca me interessou, o que também foi ótimo no mundo profissional, que adora rotular pessoas. Levei muito tempo a perceber – e outro tanto a aceitar – que para ser feliz neste campo teria de abandonar o mundo corporate.

Há vantagens na multi potencialidade.
Não ter medo de mudanças, por exemplo. Porque é novo, porque é sempre apetecível ver coisas novas. O contra é que o novo deixa de o ser rapidamente e torna-se aborrecido.
Ser capaz de ser bom e feliz em vários domínios. Sinto que poderia, literalmente, ser feliz em qualquer profissão. Durante o tempo que levasse a “fazer o tour”. Depois farto-me, claro. O contra disto é que vivemos num mundo em que as pessoas se apresentam pelo que fazem. “Olá, sou o Não-sei-quantos e sou mecânico“. Sou mecânico?!?! Porra, a tua identidade vem da tua profissão?

Todo um conjunto de maravilhas clínicas associadas a esta condição

Em primeiro lugar, apresentar o meu amigo de longa data: transtorno de personalidade borderline! É uma maravilha! 🤦‍♂️ Leiam sobre isso no link, se quiserem, que não me apetece falar sobre isto…
Outras coisas que se juntam à receita são a previsível hiperatividade na infância (e não só), que me valeu grandes corretivos pedagógicos. O transtorno bipolar nunca tive, mas diz que também é comum.

Sempre nutri um carinho especial pelo transtorno de déficit de atenção, o que alimentou com grande empenho a minha vitimização. Transtorno desafiador opositor? Também tive. Igualmente agradável…
Estados depressivos? Ansiedade? Check ✔️
Transtorno obsessivo-compulsivo? Claro! Como não? Coçar uma orelha e ter de coçar a outra “para equilibrar”? Sempre. ⚖️
Pisar as “brancas” da passadeira em mesmo número com cada pé? Óbvio! Senão, qual é a graça de atravessar a estrada? 🥱
Verificar 50 vezes se me esqueci das coisas? Só por segurança. 😡
Voltar atrás para verificar se tranquei a porta, constatar que sim, mas por via das dúvidas, destrancar e voltar a trancar? Pois naturalmente… 🤯

E não há vantagens?

Naturalmente, é óbvio que há vantagens. Uma das inteligências que tenho desenvolvidas é a interpessoal, o que faz com que seja muito difícil, mesmo muito, enganarem-me. Em resumo, é como se a pessoa estivesse a dizer coisas e eu conseguisse ver os balões – tipo cartoon – à volta da sua cabeça com as suas verdadeiras intenções. É uma sensibilidade extrema à comunicação não verbal.
Ora, isso já me salvou a vida várias vezes. Por exemplo, chegar a uma sala de espera e saber que não me posso sentar ao lado daquela pessoa. É esquisito, mas hoje já o faço sem pensar. Aprendi a confiar.
Por outro lado, a habilidade musical dá jeito em jantares com amigos se houver um piano por perto. Ou uma guitarra. Ou um saxofone… 🙂

A criatividade também é um ponto positivo. Ideias não me faltam, sobre tudo e mais alguma coisa. Resolver problemas é um vício. Jogos, só aqueles de dar um nó no cérebro. Ideologias? Digamos que quando era mais novo me chamavam o “Teorias” 🙂

A avidez pelo saber também é proveitoso. Tenho vontade de aprender sobre todas as coisas. Geralmente, o resultado são conversas muito interessantes e as pessoas parecem gostar disso.
Ter quase sempre um ponto de vista diferente de todos, em posição meta, dá igualmente bons frutos quando aprendes a comunicar aquilo que vês e sentes.
Perceber que a visão que tenho das coisas está frequentemente à frente do nosso tempo tornou-se vantajoso em termos de trabalho, por exemplo 🙂

Há preocupações?

Pois, inevitavelmente. Por exemplo, as relações interpessoais são complicadas, especialmente as afetivas. Muitas baseadas em personagens criadas para agradar. As genuínas são poucas, vulneráveis e vividas sempre com medo da rejeição.
Simultaneamente, lembro-me de viver outra preocupação toda a vida. O medo da eventualidade de consultar um psicólogo ou psiquiatra com a certeza de que me internariam. Hoje rio-me, uma vez que já fiz os dois e ainda ando cá fora, mas vivi com medo disto muito tempo.

Por último, há cerca de 20 meses surgiu outra preocupação. Ter uma filha que, provavelmente, viverá com isto, fez emergir a preocupação de estar à altura de ser pai suficiente para lhe permitir vivê-lo sem se sentir sozinha, incompreendida, deslocada e rejeitada por ser incompreendida.

Quando um dia leres isto, miúda, que não seja novidade. Que o vivas aproveitando muito mais as coisas boas do que atormentada pelas outras.
É assim que o pai quer começar a fazer. Por ti. Contigo.

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