Desabafo sobre quando amar muito é pouco…

Abr 7, 2021 | NOT SO SECRET me

Já me disseram que só amo gente louca. É que a graça não é só beijar na boca.”, Elana Dara.

Hoje apetece-me desabafar sobre quando amar muito é, por muito que custe, pouco.

Estou convicto de que amar é a razão pela qual fomos criados. Antes de mais nada, parece-me um bom começo.
Não me salta à vista outro propósito para isto de andarmos aqui. Mas pode ser que seja só efeitos do dia de hoje.
Dizem que o amor resolve tudo. Desde já, deixa-me esclarecer que isso é parvoíce! É fofinho, mas pateta. Não resolve coisa nenhuma.

Quem resolve tudo, ou não, és tu!

De maneiras que desilude, não é? Esperavas mais. Talvez uma cena mais… tcha-nan! Infelizmente, é o que há.

Tal como nem todas as raivas resultam em tragédia, ou todas as tristezas em depressão, também nem todos os amores resultam em felicidade eterna. O amor não resolve tudo.
Aliás, breaking news, o amor não serve para resolver nada!
Não é o amor que sentes que te resolve os problemas. No limite, és tu quem os resolve pelo amor que sentes.
Todavia, há alturas em que amar muito não chega. Às vezes amar muito é pouco.

Dizem que amar é dar de ti. Sim.
Em contrapartida, é socialmente fácil, até preferível, ignorar que amar também é receber de ti e querer receber dos outros. Igualmente, amar também é tirar de ti e tirar dos outros para teu proveito. Da mesma forma, amar também é negar a ti e aos outros.

Amar é complicado como a porra! Por isso é que muita gente só gosta.
E aceitar que amar o suficiente não é suficiente é pior ainda.

Sempre fui daqueles que vivem para quem amam. Ainda não sei bem quando foi mas, com todo o respeito, mandei isso à merda!
Apercebi-me de que isso faz muito sentido quando não te amas a ti próprio.

Comparativamente, sempre fui um tipo forte, que rejeita as emoções e para quem chorar é um gastar de água desnecessário.
Aquele tipo do “não sejas mariquinhas”, “faz-te à vidinha”. Esse otário mesmo.
Naturalmente, achava que amar-me a mim próprio estava muito próximo do discurso parolo de livro de desenvolvimento pessoal, a que o pessoal tem a mania de chamar auto ajuda.

No entanto, viver algumas experiências fez-me perceber que se não me amo a mim, amar outros revela-se um exercício duro como o raio.

Enquanto o amor próprio não estiver satisfeito, o amor pelos outros é um amor falso. Cheio de boas intenções, contudo falso. Não acredito ser possível amar realmente alguém sem que te ames a ti.

Vai daí, questionei o que é isto de me amar a mim?

No início foi confortável, já que se aparentava óbvio que amar-me teria que ver com ser como sou e quem não gostar, que se aguente à bomboca.
Até aqui, tudo jóia! Não fosse EU uma das pessoas que não gosta de quem eu sou… Isso complica um bocado este paradoxo.

Depois, passei pela fase em que amar-me a mim significava “limpar-me” de todas as coisas más que tinha na minha personalidade. Tipo, para ser perfeito. Só para ilustrar, tinha cerca de 14 382 084 horas de terapia pela frente…

Por fim, estou a dar-me conta de que o amor próprio passa pela aceitação. Passa por aceitar que sou como sou e que não tenho de gostar de tudo. Tenho é de gostar de mim como um todo. Por um lado, é aceitar que há coisas que quero realmente transformar (em menos horas de terapia) e, por outro, aceitar que há coisas com as quais vou viver. Não gosto delas, mas gosto de mim na mesma. Aceitando que tenho falhas.

A meditação, a escrita, o desporto e a Rita Deus têm tido um papel fundamental no processo. Mais a Rita… 😜

Apenas quando este amor está sereno, preenchido, seguro de si (estará alguma vez?) podes dar amor a outros.

É como aprender a andar antes de saber patinar.
A minha filha mal anda. Então, não lhe vou pôr patins nos pés, que isso é estúpido. Embora possa ser divertido de ver… Adiante!

Precisamente, é a ser pai que vejo isto com clareza. É a minha filha que me mostra isto.

Para conseguir amá-la como merece, é imperativo que me ame a mim próprio PRIMEIRO.
Caso contrário, vou usá-la a vida inteira para corrigir falhas que não são dela. E, nesse caso, temo que não seja verdadeiramente amor aquilo que tenho disponível para lhe dar.

De amar faz parte permitir-me abraçar o sofrimento. Sofrimento que em inúmeros momentos sou eu quem provoca. Em mim e nos outros. Quando se tem filhos isso é simplesmente inevitável. “Não” é quanto basta para provocar uma dor imensa àquele ser irritante que o universo decidiu colocar à minha responsabilidade. Já agora, boa, Universo! Bem jogado!

Se não tenho amor próprio para saber que não sou uma pessoa horrível quando erro perante este ser, que teimo erradamente em acreditar pertencer-me, vou ter uma vida tão desgraçadinha, que a única solução aceitável será começar a dar-lhe tudo menos amor.
E ainda que o faça bem, haverá alturas em que amor não vai ser suficiente. Ocasiões em que amar muito será pouco…

Hoje amas-me muito e isso é pouco.

Inegavelmente, não sei encontrar solução para isso. Não sei se há. Já te amei eu muito e isso não chegou. Também aí não houve remédio.

E quando amar muito alguém é pouco, é necessário fazer algo surpreendente. Inesperadamente, é preciso pegar em todo esse amor e direcioná-lo para ti.

Já que tudo o resto é insuportável.

Não ser amado é mau.
Creio ser pior não amar.
Não ser correspondido no amor deve ser logo a seguir, na escala que inventei para a dor.
Não corresponder pode ser a seguir ou antes, de acordo com o ponto de vista.

Agora haver amor, saber que está lá, que existe e é correspondido, mas que não chega? Não é suficiente? Que é… pouco?
Isso rebenta, indubitavelmente, a escala da dor, mas também a da negação, a da incompreensão e, no pior dos casos, a da fé nesse sentimento.

E se perderes a fé no amor, em que é que vale a pena acreditar?

Às vezes, amar muito é pouco. Nesses casos, ama-te a ti.
Pronto. De modos que era isto…

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